Dois amigos

Sete dias atrás morreu um antigo e entranhado amigo, o Leonardo que eu chamava de Leo, alguns chamavam de Saraiva e conhecendo seu jeito sociável, deve ser conhecido por mais muitos nomes. Por algum tempo alguns destes nomes serão ditos em rodas de amigos, durante refeições entre familiares, solitariamente para o tatami do dojo, para travesseiros, para a tela do celular com fotos, e preencherá um pouco a solidão de quem fica.

Sua presença era forte e não tinha quem não tivesse impressões dele, boas ou ruins, alguma tinha. Sua presença solar, ativa, positiva, Yo, deixou marcas bem claras e ele viverá em todas as coisas que fez e foi. Quem sentiu alegria junto dele saberá como sentir alegria junto de outras pessoas queridas, quem treinou com ele levará em si a força e malícia dos seus golpes, quem se deitou com ele não aceitará mais qualquer um em sua cama. Neste momento as continuidades dele já me parecem incalculáveis. E acho que devem ser mesmo.


Ele foi uma das pessoas que mais mudou que conheci e só agora cessada a vida eu acho que entendo um fio condutor das transformações.

Era 1998 quando nos conhecemos jogando basquete na escola Magic Jump. Éramos dois nerds que gostavam de mangá, artes marciais e outras coisas que apontavam para o Japão, outro lado do mundo onde chegaríamos juntos, treze anos depois. Naquela escola disputamos o campeonato municipal como a única “escolinha” em meio aos clubes locais, fomos repetidamente derrotados nos amistosos, sistematicamente humilhados em nossa estréia. Nosso técnico Sérgio propôs que treinássemos por três horas todos os dias da semana até o último jogo e aceitamos.

Passamos muito tempo juntos naquelas duas quadras, onde nosso vínculo começou a se forjar. Entramos nas eliminatórias como perdedores destinados, mas saímos vencedores improváveis. Foi a primeira vitória que senti na adolescência e ele era o único amigo próximo dos dias atuais que esteve lá comigo. Eu ficava muito feliz quando mencionava este dia para ele e via a alegria no olhar que ele me retornava, expressando que também lembrava. Aprendemos juntos que as possibilidades são só isso, possibilidades, e que poderíamos apostar contra elas se estivéssemos dispostos a colocar esforço de forma inteligente.

Foram três anos separados até voltarmos a nos encontrar de forma definitiva. Comecei a treinar Budo numa quarta-feira, na quinta-feira encontrei o Leo num ônibus na Av. José Bonifácio, onde ele morava. Ele usava uma camiseta branca e uma calça preta, óculos de borda grossa preta, carregava uma pasta e um mangá sob o braço enquanto voltava do Kumon. Contei sobre o Budo e ele começou na semana seguinte.

Por vinte anos trilhamos juntos o caminho do Budo, ou o caminho da Guerra. Sua frase favorita era “Se quer a Paz, esteja preparado para a Guerra.” Acho que isso significou muita coisa ao longo da sua vida e nessa busca percorreu caminhos que em certos momentos nos separou fora do dojo. Sempre treinamos juntos com respeito e prazer genuínos, mas em alguns momentos não nos demos tão bem fora do tatami.

Todos estávamos mudando, éramos jovens, ele tomou um caminho que eu considerava muito agressivo e me afastei. Ele imediatamente percebeu e magoou-se não de mim por ter me afastado, mas do que havia nele que causava meu afastamento. Sempre me lembrei desta reação genuinamente leal, e nos momentos em que mais brigamos e que mais pareciamos diferentes e distantes, essa lembrança e amizade incondicional dele nos manteve juntos. Ele nunca questionou nossa amizade e estava sempre disposto a embater nossas diferenças que em vários momentos me pareceram inconciliáveis. Pensando hoje, é como se ele quisesse entender exatamente por que eu discordava disso ou daquilo, o que nos distanciava, e onde poderíamos nos acertar.

Chegamos juntos na faixa preta e Mike, nosso professor e pai marcial, nos disse que se pudesse nos fundir teria um bom guerreiro, uma mistura ideal de ataque e defesa, mas separados éramos muito extremos e servíamos para pouca coisa. Eu defensivo, passivo, In, nunca encerraria um combate. Ele agressivo, ativo, Yo, seria eliminado assim que encontrasse um adversário que soubesse explorar isso, como aprendemos a fazer depois. O sensei sugeriu que ensinássemos um ao outro.

Foi nesta época em que nossas diferenças pareceram mais inconciliáveis, que treinamos mais intensamente juntos, entre 2008 e 2010. As aulas no dojo aconteciam de manhã e de noite, no período da tarde ninguém utilizava o local. Com a chave da escola e autorização do sensei, muitas vezes passamos o dia todo treinando, conversando, inventando formas de treinar, cenários de combate, falando da vida, brigando etc. Ele foi a pessoa que mais bateu em mim, sempre com muita vontade e sinceridade no que fazia. Sua mão era pesada e sua mira maldosa. Causamos incontáveis hematomas e cortes um no outro, e sempre nos orgulhamos tanto de causar quanto de ter sofrido. São poucas amizades em que pude sentir este tipo específico de cumplicidade.

Nesta época forjamos vínculos com outros buyus também, que carregam marcas e história com aquele que buscou vivamente tornar-se um guerreiro dos mais letais. E cada um poderá trazer uma história de algum treino maluco que o Leo os levou, como atirar dirigindo veículo, treinos para campeonato de Judo (ele que nunca foi judoca), combate com cada um portando três armas e uma armadura improvisada, luta dentro do elevador etc. Ele não tinha limites para se tornar um bom budoka, o que nem sempre parecia saudável ou até inteligente, mas ele sempre conseguiu aprender algo. Ele era bem inteligente.

Um tema frequente em nossas conversas de dojo eram nossas forças e fraquezas, pois sabíamos que quanto melhor fôssemos como buyu, como grupo, melhor poderíamos ser individualmente. No Budo é fato sabido que o combate não se restringe ao intervalo entre o primeiro e o último golpe, mas a cada momento da vida, cada escolha que fazemos desde o que comer no café da manhã até como nos dirigimos às pessoas. Debater forças e fraquezas era debater também nossa forma de viver, nossa ética, e ele sempre foi um crítico mordaz e impetuoso. Não houve um momento em que ele tenha deixado passar em branco minhas más escolhas, minhas atitudes rudes ou ingratas, minhas arrogâncias e tolices. Ele não deixava passar nada.

Em meu pior momento, doze anos atrás, quando perdi outro antigo e entranhado amigo, tornei-me amargo e egoísta, e por isso vil e mesquinho. Soube disfarçar bem para algumas pessoas, mas não dele. O Leo foi em casa em um dia em que eu estava organizando uma festa e por uma hora descascou minhas falhas de caráter, com cuidado que deixava claro o tanto em que ele havia pensado naquilo antes de dizer. Ele foi duro e certeiro. Estava certo e foi uma força muito importante para me tirar do buraco em que estava. A bronca que ele me deu não era porque eu era uma pessoa ruim, mas porque eu poderia ser uma pessoa muito melhor.

Em 2011 fomos chegamos no Japão juntos para conhecer o Ōsensei, Masaaki Hatsumi, que havia treinado nosso sensei, cujas habilidades marciais já iam muito além da nossa imaginação. Compartilhamos o maravilhamento do Budo infinito que encontramos lá e fomos indicados por Mike sensei para o Sakki Test, ao qual nos submetemos três vezes, e falhamos três vezes. Juntos. Uma vez mais humilhante do que a outra. Até que eu passei. E ele passou no dia seguinte. Da mesma forma com que eu comecei a treinar em um dia e ele no dia seguinte. E eu me lembro de como a minha felicidade parecia incompleta enquanto ele ainda não havia passado. Quando ele passou comemoramos bêbados.

Nos anos mais recentes paramos de frequentar regularmente os treinos, eu por ter tido um filho e ele por escolhas que o levaram a Ásia, África e Europa. Sua vida tomou um rumo bastante diferente e aquela agressividade que nos afastou por um tempo converteu-se em algo que atordoou a todos. Ele se tornou uma liderança espiritual e dedicou-se por inteiro à tarefa de ajudar os outros, de levar palavras de compaixão, paz e gratidão.

Hoje eu entendo melhor que a força que o movia era a do pertencimento, do agrupamento, da fraternidade. Como nada existe sem sua contraparte, esse sentimento se relaciona à agressividade, uma reação comum de quem quer proteger o seus quando ainda se é imaturo. Por dois terços da vida trilhou o caminho da Guerra na busca de guardar a vida dos que amava e este caminho o levou à Comunidade. Seus últimos dias foram dedicados a unir pessoas em caminhos da paz.

Ele viveu da melhor forma possível sua frase favorita: preparou-se a vida inteira para a Guerra e se encontrou no caminho da Paz.


A ausência que ficou é imensa. Sinto que uma parte do que sou deixou de existir, essa parte que só existia na conexão com o Leo. Com o tempo essa parte se confundirá com outras memórias fantasiosas, pois não há ninguém mais para confirmá-las.

É a mesma dor que senti há doze anos atrás, quando o Tiago morreu e verifico na vida uma lição que aprendi junto do Leo no tatami: a dor não diminui. Quando o Coração (心 – Kokoro) está Consciente (残心 – Zanshin) a dor dói exatamente como da primeira vez, o que muda somos nós que aprendemos a viver com ela. E é nossa responsabilidade o que faremos de nós com essas novas ausências.

Começamos a trilhar o Caminho da Guerra (武道 – Budo) juntos e vinte e um anos depois do início eu me deparo com um novo e assombroso desafio, o de seguir em frente sem o companheiro incondicional do inicio da caminhada.

O Leo está em meu Taijutsu, fomos uma espécie de molde e contramolde um do outro, e sinto que no Budo sempre estaremos juntos. Se a lembrança for dolorosa, a caminhada será insuportável pois ele estará ali a todo momento, então me esforçarei para seja o contrário, para que a memória me fortaleça. Farei um jardim imenso em seu vazio e com as sementes que nos deixou.

Na nossa última conversa ele fez críticas à forma com que trabalhamos em dojo e levarei elas em meu coração. Sua força, lealdade e sinceridade tornam mais fortes as raízes da nossa linhagem, todos os que treinaram com você são um pouco melhores por causa disso.

Seu karma é forte e suas ações irão reverberar pelo Samsara. Que nossas continuidades possam novamente se cruzar.


Algumas semanas antes da partida do Leo tive uma conversa com meu filho no qual surgiu o assunto da Morte. Falei com toda sinceridade e pouco conhecimento que tinha. O Ravi entendeu algumas coisas, inclusive a tristeza da ausência. O Leo é a primeira pessoa que o Ravi conheceu, sentiu afeto e foi separado pela morte. A primeira ausência que lhe feriu.

Ao partir o Leo me ensina sobre a vida e ensina ao meu filho sobre a morte.

Sou muito grato por termos nos conhecido cedo e por você nunca ter saído de perto. Por termos nos falado até o fim, por você ser tão gentil com minha família e por você elogiar o bigode de festa junina do meu filho em seu último dia.

Corpo não mente – por Paulo Leminski

“Integrar mente e corpo é voltar ao paraíso que só conseguimos
experimentar em momentos privilegiados.”

Quando Francisco Xavier, o missionário jesuíta, aportou no Japão, na crista das navegações, sua catequese produziu milhares de conversões e o catolicismo começou a se espalhar pelo país.

Nas cartas que escreveu para seus superiores em Roma, Xavier descreve com júbilo os progressos do apostolado na Terra do Sol Nascente. Nas mesmas cartas, porém, queixa-se contra os adeptos de uma seita chamada zen (deve ser a primeira menção ao zen na Europa).

Não consigo converter nenhum dos adeptos dessa seita, Xavier confessa.

Não mostram nenhum respeito pelas coisas sagradas, riem de tudo e debocham dos símbolos de nossa religião, prossegue.

A razão secreta do insucesso de Xavier com os praticantes do zen reside na radical diferença entre as relações corpo/mente (ou corpo/alma) no catolicismo e no zen.

Todas as práticas zen (o zen é – sobretudo – uma prática) visam atingir o ponto de fusão corpo/mente, aquele lugar alfa onde essa distinção (vista como erro e ilusão) não seja mais possível.

Visariam, de certa maneira, uma espiritualização de corpo e uma corporificação da mente e do espírito.

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Isso é muito visível nas artes marciais, judô, kendô, caratê, aikidô, todas empapadas do zen.

Quem pratica artes marciais, aprende logo que o corpo não é urna máquina governada por um comandante genial chamado mente.

Na hora de aplicar um golpe, sente-se claramente que o corpo pensa. Impossível não ver os paralelos entre essa experiência e a vivência do sexo que, para ser realizado plenamente, exige um momento de fusão total entre um corpo que sente e uma mente que dirige.

Não se pode obter uma ereção ou um orgasmo pensando em reforma tributária…

Ao tentar converter superiores da seita zen, com a frase básica “salve tua alma”, Xavier esbarrou num obstáculo intransponível: os monges zen não podiam conceber que a alma fosse uma coisa que a gente possuísse e pudesse ter um destino distinto do corpo, suas peripécias, misérias e esplendores.

A arte de um judoca ou de um carateca não é “una cosa mentale”, como disse Leonardo da pintura. É essencialmente unitária, anterior ou posterior à dicotomia corpo/mente que impregna, sub-repticiamente, todo o pensamento ocidental de Descartes para cá.

As origens desse divórcio no indissociável são, claro, de natureza religiosa: a mente do racionalismo ocidental é a filha leiga da alma salvável do cristianismo. Sem direito a além-túmulo, porém.

Mas não pense que coisa tão grave teve raízes apenas filosóficas na mente de algum pensador isolado.

A sociedade urbano-industrial, através dos métodos de trabalho que impôs, promove a dissociação corpo/mente mais do que qualquer tratado de metafísica.

É uma força desagregadora, destribalizante, atomizante.

Não há lugar para o corpo na grande fábrica, a não ser como a unidade de trabalho, nunca como lugar de prazer e satisfação sensorial.

E a alma toma os novos nomes de “habilitação profissional”, “treinamento especializado”, abstrações no seio dessa imensa abstração que é a anônima sociedade industrial-urbana.

Eu mando, você obedece

Escravos e senhores. Nobres e servos. Patrões e empregados. Técnicos e operários. Nada distingue mais o homem dos animais do que a divisão de trabalho, nossa grande força e também a fonte de nossas fraquezas.

Foi através da divisão do trabalho que o homem multiplicou seus poderes sobre a natureza numa velocidade fantástica: há apenas 30 mil anos tudo o que tínhamos para enfrentar a hostilidade do meio ambiente eram armas ele pau, pedra e osso e vestimentas de peles de animais. Neste prazo biologicamente curtíssimo, saltamos da lança de madeira para o computador, a eletricidade, a engenharia genética e a energia nuclear. Isso só foi possível porque o homem, em todas as latitudes, especializou determinados grupos de sociedade em tarefas específicas. Qualquer tigre sabe fazer tudo o que qualquer tigre faz, e nada além disso. Todo tigre é um inteiro. Nós somos fragmentados. Uns plantam, outros vendem. Uns mandam, outros obedecem. Uns celebram cerimônias aos deuses, outros carregam pedras para erguer pirâmides, templos e catedrais.

Quem não vê que a dicotomia mente/corpo é uma projeção e uma decorrência da divisão do trabalho, a divisão interiorizada em nós? A mente é uma metáfora da classe dirigente servida belo corpo.

A divisão do trabalho é o verdadeiro Pecado Original, aquele que nos expulsa do paraíso e nos lança na grande aventura da vida e do mundo. A serpente sugere, Eva colhe o fruto proibido, Adão o come… Integrar mente e corpo é voltar ao paraíso que só conseguimos experimentar em momentos privilegiados: a pessoas desintegradas, o paraíso também é vivido sob a forma de fragmento.

Um dos momentos mais radicais da divisão do trabalho está na separação entre trabalho braçal e intelectual. Essa divisão começa no mundo religioso. Sacerdotes c agricultores, monges e guerreiros, padres e fiéis, são o modelo remoto da atual divisão entre técnicos e teóricos diante da mão-de-obra.

E certas práticas religiosas como o jejum, a castidade, o silêncio e a busca do desconforto físico concorreram poderosamente para acelerar a cisão entre corpo e mente. Não seria exagero imaginar que a noção da “alma” tenha nascido dessas práticas onde o corpo é tratado como um inimigo, fera que deve ser domada, humilhada e reduzida a ser uma montaria dócil sob as rédeas do “Espírito”.

No século passado, quando começa o mando industrial de hoje, aparece a figura do “intelectual”, o homem/mente por excelência, vivendo apenas na atmosfera rarefeita do “mundo das idéias”. Com o intelectual, seus afins, o técnico, o especialista, o pensador…

Entre um corpo e uma mente, mil anos-luz de vazio onde se criam monstros e demônios, duendes e neuroses.

Os demônios se chamavam Lucifer, Belzebu, Asmodeu, Belial. Hoje chamam-se neurose, paranóia, esquizofrenia, mania.

É perigoso separar aquilo que, por natureza, é uno e inteiro.

De volta à unidade

Retorno ao paraíso perdido, a re-união mente e corpo não pode sequer ser sonhada, em termos integrais.

Essa estranha entidade que é o ser humano, que somos nós, resulta irremediavelmente cindida.

O próprio exercício disso que se chama “razão” parece estar ligado, carne e unha, com a dissociação entre uma metade que “pensa” e um corpo que obedece. Estamos condenados à razão.

Mas é essa mesma razão dissociativa que pode nos aproximar, por momentos iluminados, da unidade perdida, era algum ponto-anos-luz no espaço/tempo.

Nós buscamos essa unidade na prática do lúdico e do erótico, na arte, no esporte, no amor e no sexo.

Nessas áreas do in-utensílio, ela vida além da tirania do lucro e da utilidade.
Ao brincar e jogar, estamos salvos, livres. E de volta.

Para o zen, é na própria vida cotidiana que está o segredo. E preciso resgatar a grandeza infinita dos gestos simples e “elementares”. Cuidar da vida. Curtir a minúcia. Lavar a própria roupa. A louça. Arrumar a casa. Fazer sua comida. Tomar banho como quem realiza um ato sacro. Recuperar o prazer da prática dos atos primários. Saber que ser matéria, caralho e buceta, boca e estômago, é uma dignidade e um esplendor.

Dá trabalho.

Mas, para brilhar, as estrelas têm que arder, até o glorioso fim.

RUMO AO SUMO

Disfarça, tem gente olhando.
Uns, olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de bando,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.

Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.

(P. L.)

in Revista Corpo a Corpo, 1987, p. 97-98.

História da Medicina – pensadas por Eduardo Cury e fundidas por Diego M. Ortega

 

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I – Medicina e vida pós-morte

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II – Medicina, magia e religião

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III – Medicina e estado

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IV – Medicina Clínica

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V – Enciclopédia da Medicina

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VI – Pecado e doença

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VII – Anatomia

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VIII – Circulação Pulmonar

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IX – Circulação do sangue

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X – Invenção do microscópio

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XI – Micróbios e Bactérias

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XII – Teoria da Evolução

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XIII – Anestesia

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XIV – Antissepsia

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XV – Sanitarismo

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XVI – Soro

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XVII – Raio-X

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XVIII – Antibiótico

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XIX – Psicanálise

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XX – Transplante

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XXI – Tecnologia genética

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XXII – Robótica e comunicação

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XXIII – Medicina Alternativa

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XIV – Ambientalismo

80 anos e 1 dia da morte de Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti

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Ontem completaram 80 anos da execução de Sacco e Vanzetti, como lembrou  o amigo Marcos Mekaru. De noite lembramos aqui em casa um pouco da história deles: anarquistas condenados por um crime que não cometeram (latrocínio), condenados por serem anarquistas, condenados por proporem vivermos em irmandade, condenados por serem pobres e imigrantes. Condenados por não se alinharem ao poder, em alguma e nenhuma instância. Condenados por não serem cínicos nem sórdidos nem imbecis.
Punições “exemplares” como essa seguem sem sinal de que irão parar, amparadas por uma sociedade racista e elitista, mesmo sendo em sua maioria pobre. Uma sociedade tola, de uma tolice atravessa as fronteira entre escolarizados e não-escolarizados quase como se ela não existisse. De uma uma tolice que abala as convicções de professores de que todos podem aprender.
Saccos, Vanzettis, Rafaeis Braga, Chicos Mendes, Irmãs Dorothy, todos mortos em diferentes contextos, com diferentes ideologias, mas se algo os une é o fato de que foram mortos por suas pelejas contra poderes desproporcionalmente armados e amparados, seja por ideologias, como os estados, seja por capital, como os ricos, seja pela incapacidade de lidar com a violência interior, como os que defendem a conservação desta sociedade.

O dano das redes sociais ao coletivo

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Fotografia de Seth Kushner/Retna Ltd/Corbi

Douglas Rushkoff é um escritor conhecido pelo seu envolvimento com temas relacionados à mídia, cibercultura, tecno-utopias entre outros. Em uma entrevista para o jornal britânico The Guardian este trecho me chamou muito a atenção:

“O Facebook irá lhe vender o seu futuro antes mesmo de você chegar lá, eles usarão algoritmos de previsão para saber qual o seu futuro mais provável e tentarão torná-lo ainda mais provável. Eles ficarão ainda melhores em programar você – eles reduzirão a sua espontaneidade.”
O Rushkoff é um sujeito com ideias com as quais tenho certa reserva, mas são interessantes de ser ler. Esta entrevista me colocou para pensar um pouco.
Toda vez que vou postar algo penso como aquilo irá repercutir, sempre tendo em vista a estrutura oferecida pelo Facebook, única rede social que utilizo hoje*. Acredito que seja importante fazer essa reflexão sempre, inclusive no mundo físico. Todos sabemos disso, de um modo ou de outro. Mudamos sem perceber a forma de falar em ambientes diferentes, o que inclui temas da fala, escolha de palavras, entonação, liberdade em relação ao que se sente à vontade para falar ou não, dentre outros elementos que linguistas sabem precisar melhor do que eu.
No mundo virtual esta reflexão está condicionada a um modelo de individuo bastante particular, privilegiado pela estrutura da rede social em questão, no caso o Facebook, a maior rede social da atualidade (1,86 bilhões de usuários ativos em 2016, contra “apenas” 1 bilhão da segunda maior, o Youtube). Nesta rede social o valor social – como estou chamando a abstração que que determina o alcance dos conteúdos, opinativos ou não  –não é dado pela capacidade da pessoa de articular argumentos, promover discussões, criar laços empáticos ou tomar parte de mudanças e transformações**, mas no quanto ela é capaz de arrebanhar outras pessoas que “curtem e compartilham” seus conteúdos, que “concordam” (mesmo que não entendam como ou o que isso signifique), que acham que o indivíduo “as representa”. Aparentemente o valor é dado pela aprovação das multidões, pela popularidade das opiniões. Ou seja, um indivíduo cujas ideias e ações sejam menos complexas e mais “meméticas”, possíveis de ser condensadas em uma frase de efeito, uma imagem ou um vídeo curto, capazes de viralizar, tendem a ter mais valor social, alcance, do que alguém cujas ideias incomodem, instiguem a pensar.
Reconheço que exista valor nos meme para a propagação de ideias, mas eles têm limitações que nem sempre ficam claras. Um meme possui múltiplas possibilidades de interpretação, quase nunca explícitas no ato de compartilhar, mas o interlocutor lê o compartilhamento como quer, acusa ou apoia. E com frequência o meme é tomado como a totalidade do pensamento do indivíduo.
No Facebook podemos observar uma estrutura que reduz nossa existência virtual à avatares bastante limitados, voltados para alimentar um modelo de negócios baseado em marketing direcionado, produção de conteúdos rápidos (tipo fast food) e mineração de dados para Big Data. Isso manifesta-se no tipo de conteúdo que consegue alcance, nas escolhas do algoritmo sobre o que aparecerá mais ou menos, no maior alcance de posts pagos dentre outros.
Podemos falar o que queremos nas redes e alcançar muitas pessoas, contanto de façamos do modos que eles propõe: texto curtinho? Vira imagem com cor forte no Facebook. Textão? Uhm, circula menos, mas circula. Post que poderia estar direto no Facebook mas está no seu blog? Uhm, sei não, circula menos ainda. Como isso é decidido? Não temos acesso à estes critérios (algoritmos são “segredos comerciais”), mas não é absurdo afirmar que eles estão subordinados ao modelo de negócios do Facebook, que sim, têm ideologia, no caso Ideologia da Califórnia. Pepe Escobar vai descrever este fenômeno com um termo que gosto muito: opinião embrulhada em código.
Isso cada vez mais se estende ao mundo físico e molda nossas realidades. Mais credibilidade é dada à um post com 1000 compartilhamentos do que, por exemplo, à uma aula de um profissional que estudou um determinado assunto a fundo, junto de seus pares em uma universidade, que teve suas ideias submetidas à um crivo minimamente razoável. Não quero dizer que os conhecimentos acadêmicos necessariamente sejam superiores aos conhecimentos produzidos fora daquele espaço, apenas que é um tipo de conhecimento produzido com um método mais rigoroso do que popularidade, como é o caso de redes sociais.
Além disso a forma com que o indivíduo é exposto, não como parte de um coletivo, mas como um ponto separado do todo, o submete ao escrutínio moralista de todos os lados: direita, esquerda, alto e baixo. Pessoas com histórias de vida complexas são julgadas eternamente por uma postagem que muitas vezes tem menos de 140 caracteres fonéticos, por uma escolha de palavras (não que estas não mereçam um olhar atento). Pessoas são condenadas por um momento em que se esqueceram que um comentário no post de um amigo não é privado e que um espaço aparentemente social na verdade é um palco onde cada um está fazendo o seu próprio talk show esquizofrênico, que eventualmente fazem crossovers.
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Pessoas cujas vidas são obras complexas, com uma infinidade de nuances políticos, que variam ao longo do tempo, passam a ser julgadas pela pontual e descontextualizada moral do público. Quando isso acontece aparecem atrocidades como “Simone de Beauvoir é nazista”, “Che Guevara caçava gays”, “Mises destruiu da teoria de Karl Marx”. Estas boçalidades são celebradas por seguidores (termo ironicamente adequado) e quem as disse tem mais um incentivo para repetí-las, talvez indo além.

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Recompensa da popularidade.

Outro trecho da entrevista que me chamou a atenção foi este:

“(…) o mundo real foi diminuído por este simulacro digital, que parece sempre mais importante do que nossa realidade, quando não é – ele deve estar a serviço da nossa realidade.”

Nossas representações digitais cada vez mais condicionam nossa existência. Ninguém quer ser linchado publicamente e nem ser deixado de fora dos seus círculos sociais, então é bom que se adeque. Pouco a pouco surgem cartilhas do que deve e do que não deve ser dito, e todos os grupos tem usas próprias.

Você é contra o desarmamento? É coxinha fascista de direita, com certeza. Ah, mas é a contra a herança e a favor da taxação das grandes fortunas? Então deve ser um comunistinha esquerdopata. É o dois? Bem, para a direita será de esquerda e para a esquerda será de direira. E sim, vai morrer sozinho, afogado em um mar informacional, onde a única certeza é a sua inadequação às opiniões dos outros.

E o problema não é apenas o rótulo atribuído, mas a nossa incapacidade de lidar coletivamente com a pluralidade de significados que a linguagem nos proporciona. Esta necessidade de rotular e esta incapacidade não são algo “natural do ser humano”, como o senso comum poderia afirmar, mas é fruto de como estamos estruturando nossas redes. As redes sociais, apesar do nome, promovem uma socialidade que atende à um modelo de negócio parasita, que nos molda cada vez mais e mais para produzirmos valor. E isso significa atrito, entropia e segregação. Em outras palavras, tretas e zuera viralizam, debate e pensamento não. Não sei se há algum caminho para a internet promover integração global, mas se existe sei que é longe das corporações.

* Há quem considere Whats App, Telegram e E-mail redes sociais. Eu não sou uma dessas pessoas.

** Todos valores arbitrários meus, mas que são alardeados como benefícios da internet e das redes sociais.

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Auto-ceticismo

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Lá pelos meus 12 ou 13 anos tive a oportunidade de ler Mago: A Ascensão, um jogo de RPG que afetou consideravelmente o meu modo de ver o mundo. Neste livro são apresentadas as regras do jogo e o cenário, e tem como fio condutor uma história mostrada em fragmentos. Nesta uma moça que desperta, ou seja, que realiza a maleabilidade da realidade e o seu potencial para alterá-la, torna-se uma maga, e partir de um certo ponto recebe orientações de um mestre para não se perder neste mundo magiko (com “k” mesmo). Em um dos fragmentos o mestre diz à ela algo como “duvide sempre da própria percepção, sempre questione sua sanidade, lembre-se sempre que a realidade percebida é quase sempre o que você quer perceber, conscientemente ou não”.

Ainda que tratasse de um jogo de ficção, sem conexão com a realidade aquilo me marcou. Desde então todos os dias quando acordo faço a pergunta “Estou louco? O que estou percebendo é real?”. Hoje com meus trinta anos me dei conta que já passei mais de metade da minha vida com este questionamento. Tenho a impressão que se eu parar de fazê-lo corro o risco de tornar-me babaca cósmico, um cretino que acredita que sua percepção da realidade tenha privilégio sobre a dos outros.

Kanji e conhecimentos latentes

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adj (lat latente) 1 Que não se vê, que está oculto. 2 Dissimulado. 3 Subentendido. 4 Diz-se da atividade ou caráter que, em certo momento, não se manifesta, mas que é capaz de se revelar ou desenvolver quando as circunstâncias sejam favoráveis ou se atinja o momento próprio para isso.

Neste semestre minha companheira e eu começamos a estudar japonês e tivemos que conhecer 3 formas de escrever:

  • Hiragana -> Forma de escrita silábica para palavras de origem japonesa
  • Katakana -> Forma de escrita silábica para palavras de origem estrangeira, além onomatopéias, termos técnicos ou científicos e às vezes nomes de empresas japonesas.
  • Kanji -> Forma de escrita ideográfica.

O interesse surgiu pelo Budo Taijutsu, arte marcial que praticamos e por conta de uma lição de casa que me foi passada na última ida ao Japão: “Sensei, o senhor tem alguma recomendação para eu focar meu treino, uma deficiência ou algo assim?” “Sim, aprenda japonês.”

Muitos curiosos sobre cultura japonesa (eu incluso) gostam de saber sobre os kanji, apesar da dificuldade, e é sobre eles este post.

Os kanji derivam de caracteres antigos chineses, importados provavelmente durante o século VI. Seus significados são muito próximos, mas o filtro cultural de quem lê (um chinês ou um japonês) pode afetar bastante a interpretação.

Outro detalhe que vale notar é o que aconteceu com os ideogramas na China: eles foram simplificados durante a Revolução Cultural de Mao Zedong, para aumentar as taxas de alfabetização. Com isso mais pessoas conseguem ler na nova forma de escrita (chinês simplificado), porém encontram dificuldades com o chinês tradicional. Em alguns lugares que ficaram foram da influência de Mao a escrita tradicional persistiu, como Taiwan e Hong Kong.

Agora vamos a parte mais legal, algo que aprendi nesta última viagem e complementei com uma pesquisa nesta semana. Tudo começa com um mito.

Amaterasu Omikami é a deusa do sol, a divindade mais importante da religião Shinto (ou xintoísmo) e soberana de Takama no Hara, a Planície Superior Celestial. Suzanoo, seu irmão, teve muitas desavenças com ela (uma dela foi jogar um cavalo esfolado em seu tear), até que Amaterasu resolveu se trancar numa caverna (chamada Ama-no-Iwato), com uma rocha imensa na entrada, e o mundo se escureceu.

Os deuses tentaram de todas as maneiras convencer Amaterasu a sair de lá:

  • Galos foram colocados na porta da caverna para que seus cacarejos dessem a impressão que era o momento do sol nascer.
  • Uma árvore Sakaki foi plantada em frente à caverna e decorada com jóias brilhantes (magatama), tecidos alvos e um espelho (yata no kagami).
  • A deusa Amenouzume (ou Ama-no-Uzeme) dançou loucamente na frente da caverna, para que os outros deuses se divertissem.

O barulho dos deuses se divertindo com a dança do lado de fora da caverna chamou a atenção de Amaterasu, que resolveu colocar a cabeça para fora e ver o que estava acontecendo. A primeira coisa que ela viu foi seu reflexo no espelho, que a maravilhou e distraiu. O deus Ame-no-tajikara-wo, muito forte, a puxou para fora, Tuto-Tamu amarrou em suas costas uma vara com palha trançada e lhe disse que ela não poderia mais se esconder, pois o mundo estava novamente banhado em sua luz radiante.

Ah, alguém (não sei quem) atirou a pedra para longe e onde ela caiu existe hoje a cidade de Togakushi, cidade natal da Togakure Ryu, uma das escolas de ninjutsu da Bujinkan. Togakushi seria algo como “Cidade da Porta Oculta”, se referindo à porta que fechava a caverna de Amaterasu, onde ela se ocultava.

A história apresenta muito artefatos presentes no Shinto, mas vou falar do kagami. O kanji utilizado para representá-lo é o seguinte:

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Ele é formado por dois outros kanji, kage (sombra ou imagem) + mi (ver, enxergar). Notar que o kage torna-se kaga, na nova palavra formada. Pode ser interpretado como “ver a sombra” ou “ver a imagem”.

Um amigo praticante do Shinto no santuário de Sakuragi contou que quando se olha no 鏡(kagami) e se remove o ga ( 我, kanji que significa “ego”) o que sobra é kami ( 神 ), kanjji que significa divindade. Ou seja, quando nos olhamos no espelho e removemos nosso ego o que resta é uma divindade.

Por esta divindade acredito que se refira ao deus interior que praticantes do Yoga se referem ao dizerem “namastê” (“O Deus que habita no meu coração, saúda o Deus que habita o seu coração”, segundo o Baghavad Gita); a natureza búdica de todos os seres humanos,  segundo os budistas; a parte de Deus que nos cabe, segundo os cabalistas e assim por diante.

 O famoso espelho, guardado Ise Jingū, um santiário Shinto. Não, não parece o que chamamos de espelho e nem consigo ver um reflexo. Não me pergunte.

O famoso espelho, guardado Ise Jingū, um santiário Shinto. Não, não parece o que chamamos de espelho e nem consigo ver um reflexo. Não me pergunte.

Há um trocadilho, como podemos ver, um passeio entre os sons do ideograma (kagami) que trazem um novo ideograma (Ga). É uma interpretação, é claro, uma escolha de leitura, mas me faz pensar o quanto na se pode aprender escavando a linguagem, ao realizar estes exercícios outras vezes buscando aprender o que da história e cultura foi codificado na língua.

Sobre o mito ouvi interpretações diferentes de pessoas diferentes que acabei não colocando no corpo do texto, mas pode interessar:

  • Amaterasu é uma deusa ligada também à beleza e à pureza, vaidosa. Ela saiu da caverna porque ao ouvir os deuses gargalhando e se divertindo teve a impressão que havia alguém capaz de substituí-la e ela queria ver quem era esse alguém. Ao sair da caverna ela viu o espelho e percebeu que essa pessoa era ela mesma.
  • Amaterasu teve sua divindade esquecida pela tristeza e vaidade (ego) e a experiência toda que termina com ela se olhando no espelho a permitiu reencontrar sua divindade.

O duplipensar nosso de cada dia

Uns meses atrás compartilhei no Facebook o seguinte quadrinho que compara duas obras de Orwell e Huxley. Vi na timeline de um amigo e achei interessante:

huxley_orwell1

E rolou uma discussão muito bacana na minha postagem de vários amigos de círculos e áreas de conhecimento diferente, mas como o Facebook é lamentável enquanto local de referenciação de informação não consegui achar a conversa e achei melhor gastar o tempo aqui escrevendo.

Sobre a tirinha acredito que o autor fez uma leitura rasa demais do Orwell e não aborda o que considero o elemento mais poderoso de 1984 (link direto para download), que é o duplipensar. Bem, o que é isso? Temos a explicação do próprio Orwell em seu livro:

Saber e não saber, estar consciente de sua completa sinceridade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e ainda assim acreditar em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade e apropriar-se dela, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer o quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza máxima: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” era necessário usar o duplipensar.

Tem um video do Ted-Ed bacana que explica bem:

Basicamente é um processo de assimilar duas ideias antagônicas e fazê-las conviver como se não fossem. Se partirmos do ponto relativamente seguro de que a nossa mente é moldada pela nossa linguagem o duplipensar é uma espécie de deficiência cognitiva, não fruto de uma má formação biológica, mas de uma má formação cultural e política. Trata-se de um processo cada vez mais cotidiano encadeiamento de conceitos que eventualmente nos levam a lugares terríveis, mas que no fim nos parecem “naturais”, pois nossas mentes já estão moldadas, em certa medida, com e pelo duplipensar. Esta cena do fime Detachment traz alguns exemplos cotidianos disso:

Sobre a mente moldada pela linguagem recomendo o documentário Maybe Logic: The Lives and Ideas of Ribert Anton Wilson, do qual alguma boa alma recortou um trecho central e legendou para nós:

É só isso o post, para compartilhar uma sequência de materiais que vi e lembranças que tive. E toda vez que venho a este assunto sou ainda mais grato à minha boa amiga Raquel Torres, que me deu o livro 1984 com um bônus de receita para emagrecer. =)

Recital Sarmouni e Gurdjief

A Irmandade Sarmoug é relatada por George Gurdjieff como uma irmandade Sufi existente no coração da Ásia (sabe-se lá onde ele fica). Guardiões de conhecimentos antigos, este recital parece trazer uma amostra deste caminho de sabedoria:

Aquele que sabe e não sabe que sabe: ele está adormecido. Deixe-o tornar-se um, completo. Deixe-o ser desperto.
Aquele que soube, mas não sabe: deixe-o ver novamente o começo de todas as coisas.
Aquele que não deseja saber e ainda assim diz que precisa: deixe-o ser guiado para a segurança e para a luz.
Aquele que não sabe e sabe que não sabe: deixe-o, através deste conhecimento, saber.
Aquele que não sabe, mas pensa que sabe: liberte-o da confusão desta ignorância.

Aquele que sabe e sabe que ELE É: ele é sábio. Deixe-o ser seguido. Por apenas sua presença um homem pode ser transformado.

Eu que sei e que não sei que sei: deixe-me tornar um, completo. Deixe-me ser desperto.
Eu que soube, mas não sei: deixe-me ver novamente o começo de todas as coisas.
Eu que não desejo saber e ainda assim digo que preciso: deixe-me ser guiado para a segurança e para a luz.
Eu que não sei e sei que não sei: deixe-me, através deste conhecimento, saber.
Eu que não sei e penso que sei: liberte-me da confusão desta ignorância.

Aquele que sabe e sabe que ELE É: ele é sábio. Deixe-o ser seguido. Por apenas sua presença um homem pode ser transformado.

Nós que sabemos e que não sabemos que sabemos: deixe-nos tornar um, completos. Deixe que tornemo-nos despertos.
Nós que soubemos, mas não sabemos: deixe-nos ver novamente o começo de todas as coisas.
Nós que não desejamos saber e ainda assim dizemos que precisamos: deixe-nos ser guiados para a segurança e para a luz.
Nós que não sabemos e sabemos que não sabemos: deixe-nos, através deste conhecimento, saber.
Nós que não sabemos e pensamos que sabemos: liberte-nos da confusão desta ignorância.

Aquele que sabe e sabe que ELE É: ele é sábio. Deixe-o ser seguido. Por apenas sua presença um homem pode ser transformado.

Assim [foi?] com nossos antepassados.
Assim {seja?] com nossos sucessores.
Assim [seja?] conosco.
Nós firmamos este compromisso.
Deixe que seja assim.

gurdjieff1920
O simpático Gurdjief

 Gurdjief é uma figura bastante ímpar que entrei em contato há pouco tempo, através de um bom amigo que me passou o livro Beelzebu’s Tales to his Grandson (Relatos de Beelzebub ao seu neto – link direto para download) e do Jodorowyski, que conheceu Reyna D’Assia, filha de Gurdjief, e passou por uma tempestade atípica durante e depois do encontro.

Há um filme excelente do diretor Peter Brook que conta um pouco dos primeiros anos de Gurdjief, baseado em sua autobiografia Meeting with Remarkable Men (Encontro com homens notáveis). Segue uma cena forte do filme:

E o link para download por torrent (não sabe usar torrent? Veja aqui como fazer):

https://kat.cr/gurdjieff-meetings-with-remarkable-men-avi-t3519647.html

Também há este documentário russo chamado Sou Gurdjief e não irei morrer! (com legendas em inglês):