Sete dias atrás morreu um antigo e entranhado amigo, o Leonardo que eu chamava de Leo, alguns chamavam de Saraiva e conhecendo seu jeito sociável, deve ser conhecido por mais muitos nomes. Por algum tempo alguns destes nomes serão ditos em rodas de amigos, durante refeições entre familiares, solitariamente para o tatami do dojo, para travesseiros, para a tela do celular com fotos, e preencherá um pouco a solidão de quem fica.
Sua presença era forte e não tinha quem não tivesse impressões dele, boas ou ruins, alguma tinha. Sua presença solar, ativa, positiva, Yo, deixou marcas bem claras e ele viverá em todas as coisas que fez e foi. Quem sentiu alegria junto dele saberá como sentir alegria junto de outras pessoas queridas, quem treinou com ele levará em si a força e malícia dos seus golpes, quem se deitou com ele não aceitará mais qualquer um em sua cama. Neste momento as continuidades dele já me parecem incalculáveis. E acho que devem ser mesmo.
Ele foi uma das pessoas que mais mudou que conheci e só agora cessada a vida eu acho que entendo um fio condutor das transformações.
Era 1998 quando nos conhecemos jogando basquete na escola Magic Jump. Éramos dois nerds que gostavam de mangá, artes marciais e outras coisas que apontavam para o Japão, outro lado do mundo onde chegaríamos juntos, treze anos depois. Naquela escola disputamos o campeonato municipal como a única “escolinha” em meio aos clubes locais, fomos repetidamente derrotados nos amistosos, sistematicamente humilhados em nossa estréia. Nosso técnico Sérgio propôs que treinássemos por três horas todos os dias da semana até o último jogo e aceitamos.
Passamos muito tempo juntos naquelas duas quadras, onde nosso vínculo começou a se forjar. Entramos nas eliminatórias como perdedores destinados, mas saímos vencedores improváveis. Foi a primeira vitória que senti na adolescência e ele era o único amigo próximo dos dias atuais que esteve lá comigo. Eu ficava muito feliz quando mencionava este dia para ele e via a alegria no olhar que ele me retornava, expressando que também lembrava. Aprendemos juntos que as possibilidades são só isso, possibilidades, e que poderíamos apostar contra elas se estivéssemos dispostos a colocar esforço de forma inteligente.
Foram três anos separados até voltarmos a nos encontrar de forma definitiva. Comecei a treinar Budo numa quarta-feira, na quinta-feira encontrei o Leo num ônibus na Av. José Bonifácio, onde ele morava. Ele usava uma camiseta branca e uma calça preta, óculos de borda grossa preta, carregava uma pasta e um mangá sob o braço enquanto voltava do Kumon. Contei sobre o Budo e ele começou na semana seguinte.
Por vinte anos trilhamos juntos o caminho do Budo, ou o caminho da Guerra. Sua frase favorita era “Se quer a Paz, esteja preparado para a Guerra.” Acho que isso significou muita coisa ao longo da sua vida e nessa busca percorreu caminhos que em certos momentos nos separou fora do dojo. Sempre treinamos juntos com respeito e prazer genuínos, mas em alguns momentos não nos demos tão bem fora do tatami.
Todos estávamos mudando, éramos jovens, ele tomou um caminho que eu considerava muito agressivo e me afastei. Ele imediatamente percebeu e magoou-se não de mim por ter me afastado, mas do que havia nele que causava meu afastamento. Sempre me lembrei desta reação genuinamente leal, e nos momentos em que mais brigamos e que mais pareciamos diferentes e distantes, essa lembrança e amizade incondicional dele nos manteve juntos. Ele nunca questionou nossa amizade e estava sempre disposto a embater nossas diferenças que em vários momentos me pareceram inconciliáveis. Pensando hoje, é como se ele quisesse entender exatamente por que eu discordava disso ou daquilo, o que nos distanciava, e onde poderíamos nos acertar.
Chegamos juntos na faixa preta e Mike, nosso professor e pai marcial, nos disse que se pudesse nos fundir teria um bom guerreiro, uma mistura ideal de ataque e defesa, mas separados éramos muito extremos e servíamos para pouca coisa. Eu defensivo, passivo, In, nunca encerraria um combate. Ele agressivo, ativo, Yo, seria eliminado assim que encontrasse um adversário que soubesse explorar isso, como aprendemos a fazer depois. O sensei sugeriu que ensinássemos um ao outro.
Foi nesta época em que nossas diferenças pareceram mais inconciliáveis, que treinamos mais intensamente juntos, entre 2008 e 2010. As aulas no dojo aconteciam de manhã e de noite, no período da tarde ninguém utilizava o local. Com a chave da escola e autorização do sensei, muitas vezes passamos o dia todo treinando, conversando, inventando formas de treinar, cenários de combate, falando da vida, brigando etc. Ele foi a pessoa que mais bateu em mim, sempre com muita vontade e sinceridade no que fazia. Sua mão era pesada e sua mira maldosa. Causamos incontáveis hematomas e cortes um no outro, e sempre nos orgulhamos tanto de causar quanto de ter sofrido. São poucas amizades em que pude sentir este tipo específico de cumplicidade.
Nesta época forjamos vínculos com outros buyus também, que carregam marcas e história com aquele que buscou vivamente tornar-se um guerreiro dos mais letais. E cada um poderá trazer uma história de algum treino maluco que o Leo os levou, como atirar dirigindo veículo, treinos para campeonato de Judo (ele que nunca foi judoca), combate com cada um portando três armas e uma armadura improvisada, luta dentro do elevador etc. Ele não tinha limites para se tornar um bom budoka, o que nem sempre parecia saudável ou até inteligente, mas ele sempre conseguiu aprender algo. Ele era bem inteligente.
Um tema frequente em nossas conversas de dojo eram nossas forças e fraquezas, pois sabíamos que quanto melhor fôssemos como buyu, como grupo, melhor poderíamos ser individualmente. No Budo é fato sabido que o combate não se restringe ao intervalo entre o primeiro e o último golpe, mas a cada momento da vida, cada escolha que fazemos desde o que comer no café da manhã até como nos dirigimos às pessoas. Debater forças e fraquezas era debater também nossa forma de viver, nossa ética, e ele sempre foi um crítico mordaz e impetuoso. Não houve um momento em que ele tenha deixado passar em branco minhas más escolhas, minhas atitudes rudes ou ingratas, minhas arrogâncias e tolices. Ele não deixava passar nada.
Em meu pior momento, doze anos atrás, quando perdi outro antigo e entranhado amigo, tornei-me amargo e egoísta, e por isso vil e mesquinho. Soube disfarçar bem para algumas pessoas, mas não dele. O Leo foi em casa em um dia em que eu estava organizando uma festa e por uma hora descascou minhas falhas de caráter, com cuidado que deixava claro o tanto em que ele havia pensado naquilo antes de dizer. Ele foi duro e certeiro. Estava certo e foi uma força muito importante para me tirar do buraco em que estava. A bronca que ele me deu não era porque eu era uma pessoa ruim, mas porque eu poderia ser uma pessoa muito melhor.

Em 2011 fomos chegamos no Japão juntos para conhecer o Ōsensei, Masaaki Hatsumi, que havia treinado nosso sensei, cujas habilidades marciais já iam muito além da nossa imaginação. Compartilhamos o maravilhamento do Budo infinito que encontramos lá e fomos indicados por Mike sensei para o Sakki Test, ao qual nos submetemos três vezes, e falhamos três vezes. Juntos. Uma vez mais humilhante do que a outra. Até que eu passei. E ele passou no dia seguinte. Da mesma forma com que eu comecei a treinar em um dia e ele no dia seguinte. E eu me lembro de como a minha felicidade parecia incompleta enquanto ele ainda não havia passado. Quando ele passou comemoramos bêbados.
Nos anos mais recentes paramos de frequentar regularmente os treinos, eu por ter tido um filho e ele por escolhas que o levaram a Ásia, África e Europa. Sua vida tomou um rumo bastante diferente e aquela agressividade que nos afastou por um tempo converteu-se em algo que atordoou a todos. Ele se tornou uma liderança espiritual e dedicou-se por inteiro à tarefa de ajudar os outros, de levar palavras de compaixão, paz e gratidão.
Hoje eu entendo melhor que a força que o movia era a do pertencimento, do agrupamento, da fraternidade. Como nada existe sem sua contraparte, esse sentimento se relaciona à agressividade, uma reação comum de quem quer proteger o seus quando ainda se é imaturo. Por dois terços da vida trilhou o caminho da Guerra na busca de guardar a vida dos que amava e este caminho o levou à Comunidade. Seus últimos dias foram dedicados a unir pessoas em caminhos da paz.
Ele viveu da melhor forma possível sua frase favorita: preparou-se a vida inteira para a Guerra e se encontrou no caminho da Paz.
A ausência que ficou é imensa. Sinto que uma parte do que sou deixou de existir, essa parte que só existia na conexão com o Leo. Com o tempo essa parte se confundirá com outras memórias fantasiosas, pois não há ninguém mais para confirmá-las.
É a mesma dor que senti há doze anos atrás, quando o Tiago morreu e verifico na vida uma lição que aprendi junto do Leo no tatami: a dor não diminui. Quando o Coração (心 – Kokoro) está Consciente (残心 – Zanshin) a dor dói exatamente como da primeira vez, o que muda somos nós que aprendemos a viver com ela. E é nossa responsabilidade o que faremos de nós com essas novas ausências.
Começamos a trilhar o Caminho da Guerra (武道 – Budo) juntos e vinte e um anos depois do início eu me deparo com um novo e assombroso desafio, o de seguir em frente sem o companheiro incondicional do inicio da caminhada.
O Leo está em meu Taijutsu, fomos uma espécie de molde e contramolde um do outro, e sinto que no Budo sempre estaremos juntos. Se a lembrança for dolorosa, a caminhada será insuportável pois ele estará ali a todo momento, então me esforçarei para seja o contrário, para que a memória me fortaleça. Farei um jardim imenso em seu vazio e com as sementes que nos deixou.
Na nossa última conversa ele fez críticas à forma com que trabalhamos em dojo e levarei elas em meu coração. Sua força, lealdade e sinceridade tornam mais fortes as raízes da nossa linhagem, todos os que treinaram com você são um pouco melhores por causa disso.
Seu karma é forte e suas ações irão reverberar pelo Samsara. Que nossas continuidades possam novamente se cruzar.
Algumas semanas antes da partida do Leo tive uma conversa com meu filho no qual surgiu o assunto da Morte. Falei com toda sinceridade e pouco conhecimento que tinha. O Ravi entendeu algumas coisas, inclusive a tristeza da ausência. O Leo é a primeira pessoa que o Ravi conheceu, sentiu afeto e foi separado pela morte. A primeira ausência que lhe feriu.
Ao partir o Leo me ensina sobre a vida e ensina ao meu filho sobre a morte.
Sou muito grato por termos nos conhecido cedo e por você nunca ter saído de perto. Por termos nos falado até o fim, por você ser tão gentil com minha família e por você elogiar o bigode de festa junina do meu filho em seu último dia.






































