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Auto-ceticismo

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Lá pelos meus 12 ou 13 anos tive a oportunidade de ler Mago: A Ascensão, um jogo de RPG que afetou consideravelmente o meu modo de ver o mundo. Neste livro são apresentadas as regras do jogo e o cenário, e tem como fio condutor uma história mostrada em fragmentos. Nesta uma moça que desperta, ou seja, que realiza a maleabilidade da realidade e o seu potencial para alterá-la, torna-se uma maga, e partir de um certo ponto recebe orientações de um mestre para não se perder neste mundo magiko (com “k” mesmo). Em um dos fragmentos o mestre diz à ela algo como “duvide sempre da própria percepção, sempre questione sua sanidade, lembre-se sempre que a realidade percebida é quase sempre o que você quer perceber, conscientemente ou não”.

Ainda que tratasse de um jogo de ficção, sem conexão com a realidade aquilo me marcou. Desde então todos os dias quando acordo faço a pergunta “Estou louco? O que estou percebendo é real?”. Hoje com meus trinta anos me dei conta que já passei mais de metade da minha vida com este questionamento. Tenho a impressão que se eu parar de fazê-lo corro o risco de tornar-me babaca cósmico, um cretino que acredita que sua percepção da realidade tenha privilégio sobre a dos outros.

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Recital Sarmouni e Gurdjief

A Irmandade Sarmoug é relatada por George Gurdjieff como uma irmandade Sufi existente no coração da Ásia (sabe-se lá onde ele fica). Guardiões de conhecimentos antigos, este recital parece trazer uma amostra deste caminho de sabedoria:

Aquele que sabe e não sabe que sabe: ele está adormecido. Deixe-o tornar-se um, completo. Deixe-o ser desperto.
Aquele que soube, mas não sabe: deixe-o ver novamente o começo de todas as coisas.
Aquele que não deseja saber e ainda assim diz que precisa: deixe-o ser guiado para a segurança e para a luz.
Aquele que não sabe e sabe que não sabe: deixe-o, através deste conhecimento, saber.
Aquele que não sabe, mas pensa que sabe: liberte-o da confusão desta ignorância.

Aquele que sabe e sabe que ELE É: ele é sábio. Deixe-o ser seguido. Por apenas sua presença um homem pode ser transformado.

Eu que sei e que não sei que sei: deixe-me tornar um, completo. Deixe-me ser desperto.
Eu que soube, mas não sei: deixe-me ver novamente o começo de todas as coisas.
Eu que não desejo saber e ainda assim digo que preciso: deixe-me ser guiado para a segurança e para a luz.
Eu que não sei e sei que não sei: deixe-me, através deste conhecimento, saber.
Eu que não sei e penso que sei: liberte-me da confusão desta ignorância.

Aquele que sabe e sabe que ELE É: ele é sábio. Deixe-o ser seguido. Por apenas sua presença um homem pode ser transformado.

Nós que sabemos e que não sabemos que sabemos: deixe-nos tornar um, completos. Deixe que tornemo-nos despertos.
Nós que soubemos, mas não sabemos: deixe-nos ver novamente o começo de todas as coisas.
Nós que não desejamos saber e ainda assim dizemos que precisamos: deixe-nos ser guiados para a segurança e para a luz.
Nós que não sabemos e sabemos que não sabemos: deixe-nos, através deste conhecimento, saber.
Nós que não sabemos e pensamos que sabemos: liberte-nos da confusão desta ignorância.

Aquele que sabe e sabe que ELE É: ele é sábio. Deixe-o ser seguido. Por apenas sua presença um homem pode ser transformado.

Assim [foi?] com nossos antepassados.
Assim {seja?] com nossos sucessores.
Assim [seja?] conosco.
Nós firmamos este compromisso.
Deixe que seja assim.

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O simpático Gurdjief

 Gurdjief é uma figura bastante ímpar que entrei em contato há pouco tempo, através de um bom amigo que me passou o livro Beelzebu’s Tales to his Grandson (Relatos de Beelzebub ao seu neto – link direto para download) e do Jodorowyski, que conheceu Reyna D’Assia, filha de Gurdjief, e passou por uma tempestade atípica durante e depois do encontro.

Há um filme excelente do diretor Peter Brook que conta um pouco dos primeiros anos de Gurdjief, baseado em sua autobiografia Meeting with Remarkable Men (Encontro com homens notáveis). Segue uma cena forte do filme:

E o link para download por torrent (não sabe usar torrent? Veja aqui como fazer):

https://kat.cr/gurdjieff-meetings-with-remarkable-men-avi-t3519647.html

Também há este documentário russo chamado Sou Gurdjief e não irei morrer! (com legendas em inglês):

Permitindo-se o infinito

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Constructos da mente são belos e complexos, mas podem ocupar todo o campo de percepção.

Para seu azar vocês são muito inteligentes.

Esta frase foi dita por Nagato sensei, um importante professor da Bujinkan¹, durante uma das aulas que acontecem aos sábados eu seu dojo que em outros horários é uma escola de ping-pong. Ela me marcou muito, apesar da simplicidade, e de certo modo refez todo meu mindset de aprendizado. Naquele dia haviam muito alunos experientes, que já ministraram muitos seminários e havia algo que se repetia em quase todos: os movimentos deles pareciam muito mais com o que eles já faziam do que com o que estava sendo mostrado por Nagato sensei. Eles foram lá para aprender com o professor, mas havia muita dificuldade em parar de enxergar apenas seus próprios movimentos no professor, era necessário que este lhes mostrasse o que estava acontecendo.

Temos a ilusão de que nós recebemos informações dos nossos sentidos de maneira objetiva, ou”pura”. Sendo assim, na ausência de quaisquer limitações médicas perceberíamos as coisas tal qual elas são – os olhos enxergariam exatamente o que está diante deles; o nariz perceberia com exatidão os aromas, o ouvido os sons e assim por diante. Pois bem, não funciona assim. O caminho da informação não é direto, pode ser pensado através deste exemplo:

  1. Luz bate no objeto e segue para os olhos.
  2. Olhos transformam esta luz numa imagem que é enviada ao cérebro.
  3. Cérebro processa esta imagem e produz uma interpretação da imagem.

O que nós percebemos é esta interpretação da imagem e esta interpretação recebe interferências de outras coisas que já vimos, do que cérebro já sabe. Voltando à aula de Nagato sensei, os alunos mais experientes tendem a ver o que já sabem no movimento do professor, e repetem isso – não aprendem nada novo de fato. É como se um véu espelhado cobrisse o professor.

Algumas tradições budistas utilizam um modelo bastante simples do pensamento que nos ajuda a entender como a nossa mente sobrepõe nossas percepções. São chamadas 18 ilusões, às quais estamos presos. São elas:

  1. Visão
  2. Audição
  3. Olfato
  4. Tato
  5. Paladar
  6. Capacidade de pensar

Estas 6 ilusões dão origem à outras 6:

  1. Visão -> Imagem
  2. Audição -> Som
  3. Olfato -> Cheiro
  4. Tato -> Textura
  5.  Paladar -> Sabor
  6. Capacidade de pensar -> Pensamento

E estas outras 6 ilusões são processadas pela nossa capacidade de pensar, dando origem à outras 6 interpretações, que também são ilusões:

  1. Visão -> Imagem -> Interpretação da imagem
  2. Audição -> Som -> Interpretação do som
  3. Olfato -> Cheiro -> Interpretação do cheiro
  4. Tato -> Textura -> Interpretação da textura
  5.  Paladar -> Sabor -> Interpretação do sabor
  6. Capacidade de pensar -> Pensamento -> Interpretação do pensamento

Percebidas estas 18 ilusões passa a ser possível removê-las em camadas, mesmo que de forma impermanente, buscando assim uma percepção diferenciada do que nossa mente está habituada a nos proporcionar

Numa obra bastante breve e densa o mestre Shunryu Suzuki escreveu a seguinte frase:

Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito.

A obra chama-se Mente Zen, Mente de Principiante (clique para baixar) e nela ele passa pelos princípios do zazen (meditação zen) e do Shoshin (Mente/Coração de Principiante). No capítulo que começa com esta frase Suzuki sensei apresenta o conceito Shoshin que podemos resumir como: encare tudo como se não soubesse nada sobre, como um principiante ou, na palavras de Hatsumi sensei, como uma criança de 3 anos.

Segundo Suzuki sensei a mente deve permanecer vazia e alerta. Se pensarmos nela como um quarto podemos fazer a pergunta: é possível fazer muitas atividades num quarto cheio de coisas e sem espaço para se mover? E se ele estivesse com menos coisas, se elas estivessem guardadas nos devidos lugares, seria possível mais? Esse é o propósito da mente vazia, não se tornar alguém que não sabe nada, mas alcançar uma postura de pensamento vazio, que sempre percebe o mundo como se fosse a primeira vez, livre de qualquer carga de pensamento pré-concebidos.

Por isso o perito tem poucas opções. Seu caminho terá grandes chances de ser apenas variações dos caminhos que já fez. Já o principiante trilhará um caminho completamente novo, pois nunca esteve lá.

A mente livre e vazia vaza sem ordem conhecida, desdobra-se em camadas sem fim, dentro das quais há mais camadas.
A mente livre e vazia vaza sem ordem conhecida, desdobra-se em camadas sem fim, dentro das quais há mais camadas.

Já li e ouvi bastante a frase “O conhecimento é infinito” e hoje faria um adendo “… se você permitir que ele o seja.” Quando buscamos aprender algo é muito comum tentarmos fazer com que este algo se assemelhe com outro algo que já conhecemos, pois isso facilita o aprendizado. Facilita num sentido bastante egocentrado e limitado: queremos que o tempo dedicado àquele aprendizado frutifique algo o mais rápido possível, queremos fazer valer nosso tempo e identificar o novo conhecimento com o que já sabemos, nos dando a ilusão do “Olha, já sei!”. Quando fazemos isso delimitamos o horizonte do que há para aprender, e o conhecimento deixa de ser infinito.

Existem experiências que chocam essas percepções, mas é preciso nos expormos à elas. Na primeira vez que fui ao Japão em treinamento fui esperando aprender muitas coisas, sim, mas eu acreditava que tinha dimensão do que aprenderia. Era como se eu pensasse que havia trilhado 10km numa estrada de 10.000km, e quando cheguei lá, por duas semanas mantive esta postura egocêntrica que julgava ser capaz de mensurar o caminho e, não por acaso, falhei três vezes no exame de Sakki². Falhar foi uma humilhação, além de um fracasso. Foi horrível perceber os olhares (que julguei) julgadores dos que me viram falhar todas as vezes, mas pior ainda foi falhar diante do meu professor. A terceira vez que falhei foi durante a última aula que ele estaria lá, eu ficaria mais uma semana ainda e pensei “Bem, agora que ele vai embora pelo menos não tenho mais vergonha, então posso focar em um treino melhor, sem este peso.”, mas antes de iniciarmos a cerimônia de encerramento da aula Hatsumi sensei parou e mandou que eu me submetê-se novamente ao exame, e pensei “Ok, é só fechar os olhos, apanhar e voltar pra casa. Não tenho nada mais para provar, já falhei três vezes e claro que não será desta vez.”. Fui até o centro do tatami, sentei na posição seiza (ajoelhado) e aguardei o golpe. Até hoje não sei descrever exatamente o que aconteceu. Foi como se a divisão entre corpo-mente-espírito desaparecesse, e este todo moveu-se quando foi necessário, sem que nenhum estímulo mecânico que teria iniciado o movimento pudesse ser identificado. Confuso ouvi aplausos e lá estava Noguchi sensei (quem aplicou o exame) me dando os parabéns.

Esta experiência me deu a consciência que a estrada que eu julgava ter 10.000km era infinita e qualquer tentativa de mensurá-la era egocêntrica e tola, apenas serviria para limitar o aprendizado. Eu só consegui aprender isso depois que meu ego estava de joelhos. A “humilhação” e o “fracasso” eram apenas reflexos dele.

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A flecha do infinito aponta de volta para o arqueiro.

Aldous Huxley teve uma experiência que lhe mostrou estes limites auto-impostos de uma maneira diferente. Este vídeo do programa 8bit Philosophy conta um pouco desta história:

Psicodélicos são bastante combatidos hoje em dia pelas forças da lei e são poucos os caminhos que temos para as experienciar que não sejam ilegais. Uma possibilidade no Brasil é a ayahuasca, uma substância ingerida por muitos povos nativos que propicia uma experiência MUITO intensa. Existe um documentário excelente sobre a aya, A Molécula do Espírito.

Quando escolhi como título para este post “Permitindo-se o infinito” falava disso: livrar-se das ideias preconcebidas permite experienciar o mundo de maneira ilimitada. Nas palavras de William Blake:

Se as portas da percepção se desvelarem, cada coisa apareceria ao homem como é, infinita.

¹ A Bujinkan é uma fundação que dedica-se à divulgação e ao ensino de nove tradições marciais (artes marciais), e o conjunto delas chamamos Budo Taijutsu. Mais informações aqui.

² Neste teste o examinado assume uma posição ajoelhada (seiza) e recebe um ataque de espada de um mestre, pelas costas – tudo que ele tem que fazer é evitar o ataque. Aqui podemos ver alguns exames que foram filmados.

* As ilustrações são do artista Moebius, aka Jean Giraud, feitas após trabalhar com Alejandro Jodorowisky e passar um tempo com um guru em Fiji.