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80 anos e 1 dia da morte de Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti

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Ontem completaram 80 anos da execução de Sacco e Vanzetti, como lembrou  o amigo Marcos Mekaru. De noite lembramos aqui em casa um pouco da história deles: anarquistas condenados por um crime que não cometeram (latrocínio), condenados por serem anarquistas, condenados por proporem vivermos em irmandade, condenados por serem pobres e imigrantes. Condenados por não se alinharem ao poder, em alguma e nenhuma instância. Condenados por não serem cínicos nem sórdidos nem imbecis.
 
Punições “exemplares” como essa seguem sem sinal de que irão parar, amparadas por uma sociedade racista e elitista, mesmo sendo em sua maioria pobre. Uma sociedade tola, de uma tolice atravessa as fronteira entre escolarizados e não-escolarizados quase como se ela não existisse. De uma uma tolice que abala as convicções de professores de que todos podem aprender.
 
Saccos, Vanzettis, Rafaeis Braga, Chicos Mendes, Irmãs Dorothy, todos mortos em diferentes contextos, com diferentes ideologias, mas se algo os une é o fato de que foram mortos por suas pelejas contra poderes desproporcionalmente armados e amparados, seja por ideologias, como os estados, seja por capital, como os ricos, seja pela incapacidade de lidar com a violência interior, como os que defendem a conservação desta sociedade.

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O dano das redes sociais ao coletivo

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Fotografia de Seth Kushner/Retna Ltd/Corbi

Douglas Rushkoff é um escritor conhecido pelo seu envolvimento com temas relacionados à mídia, cibercultura, tecno-utopias entre outros. Em uma entrevista para o jornal britânico The Guardian este trecho me chamou muito a atenção:

“O Facebook irá lhe vender o seu futuro antes mesmo de você chegar lá, eles usarão algoritmos de previsão para saber qual o seu futuro mais provável e tentarão torná-lo ainda mais provável. Eles ficarão ainda melhores em programar você – eles reduzirão a sua espontaneidade.”
O Rushkoff é um sujeito com ideias com as quais tenho certa reserva, mas são interessantes de ser ler. Esta entrevista me colocou para pensar um pouco.
Toda vez que vou postar algo penso como aquilo irá repercutir, sempre tendo em vista a estrutura oferecida pelo Facebook, única rede social que utilizo hoje*. Acredito que seja importante fazer essa reflexão sempre, inclusive no mundo físico. Todos sabemos disso, de um modo ou de outro. Mudamos sem perceber a forma de falar em ambientes diferentes, o que inclui temas da fala, escolha de palavras, entonação, liberdade em relação ao que se sente à vontade para falar ou não, dentre outros elementos que linguistas sabem precisar melhor do que eu.
No mundo virtual esta reflexão está condicionada a um modelo de individuo bastante particular, privilegiado pela estrutura da rede social em questão, no caso o Facebook, a maior rede social da atualidade (1,86 bilhões de usuários ativos em 2016, contra “apenas” 1 bilhão da segunda maior, o Youtube). Nesta rede social o valor social – como estou chamando a abstração que que determina o alcance dos conteúdos, opinativos ou não  –não é dado pela capacidade da pessoa de articular argumentos, promover discussões, criar laços empáticos ou tomar parte de mudanças e transformações**, mas no quanto ela é capaz de arrebanhar outras pessoas que “curtem e compartilham” seus conteúdos, que “concordam” (mesmo que não entendam como ou o que isso signifique), que acham que o indivíduo “as representa”. Aparentemente o valor é dado pela aprovação das multidões, pela popularidade das opiniões. Ou seja, um indivíduo cujas ideias e ações sejam menos complexas e mais “meméticas”, possíveis de ser condensadas em uma frase de efeito, uma imagem ou um vídeo curto, capazes de viralizar, tendem a ter mais valor social, alcance, do que alguém cujas ideias incomodem, instiguem a pensar.
Reconheço que exista valor nos meme para a propagação de ideias, mas eles têm limitações que nem sempre ficam claras. Um meme possui múltiplas possibilidades de interpretação, quase nunca explícitas no ato de compartilhar, mas o interlocutor lê o compartilhamento como quer, acusa ou apoia. E com frequência o meme é tomado como a totalidade do pensamento do indivíduo.
No Facebook podemos observar uma estrutura que reduz nossa existência virtual à avatares bastante limitados, voltados para alimentar um modelo de negócios baseado em marketing direcionado, produção de conteúdos rápidos (tipo fast food) e mineração de dados para Big Data. Isso manifesta-se no tipo de conteúdo que consegue alcance, nas escolhas do algoritmo sobre o que aparecerá mais ou menos, no maior alcance de posts pagos dentre outros.
Podemos falar o que queremos nas redes e alcançar muitas pessoas, contanto de façamos do modos que eles propõe: texto curtinho? Vira imagem com cor forte no Facebook. Textão? Uhm, circula menos, mas circula. Post que poderia estar direto no Facebook mas está no seu blog? Uhm, sei não, circula menos ainda. Como isso é decidido? Não temos acesso à estes critérios (algoritmos são “segredos comerciais”), mas não é absurdo afirmar que eles estão subordinados ao modelo de negócios do Facebook, que sim, têm ideologia, no caso Ideologia da Califórnia. Pepe Escobar vai descrever este fenômeno com um termo que gosto muito: opinião embrulhada em código.
Isso cada vez mais se estende ao mundo físico e molda nossas realidades. Mais credibilidade é dada à um post com 1000 compartilhamentos do que, por exemplo, à uma aula de um profissional que estudou um determinado assunto a fundo, junto de seus pares em uma universidade, que teve suas ideias submetidas à um crivo minimamente razoável. Não quero dizer que os conhecimentos acadêmicos necessariamente sejam superiores aos conhecimentos produzidos fora daquele espaço, apenas que é um tipo de conhecimento produzido com um método mais rigoroso do que popularidade, como é o caso de redes sociais.
Além disso a forma com que o indivíduo é exposto, não como parte de um coletivo, mas como um ponto separado do todo, o submete ao escrutínio moralista de todos os lados: direita, esquerda, alto e baixo. Pessoas com histórias de vida complexas são julgadas eternamente por uma postagem que muitas vezes tem menos de 140 caracteres fonéticos, por uma escolha de palavras (não que estas não mereçam um olhar atento). Pessoas são condenadas por um momento em que se esqueceram que um comentário no post de um amigo não é privado e que um espaço aparentemente social na verdade é um palco onde cada um está fazendo o seu próprio talk show esquizofrênico, que eventualmente fazem crossovers.
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Pessoas cujas vidas são obras complexas, com uma infinidade de nuances políticos, que variam ao longo do tempo, passam a ser julgadas pela pontual e descontextualizada moral do público. Quando isso acontece aparecem atrocidades como “Simone de Beauvoir é nazista”, “Che Guevara caçava gays”, “Mises destruiu da teoria de Karl Marx”. Estas boçalidades são celebradas por seguidores (termo ironicamente adequado) e quem as disse tem mais um incentivo para repetí-las, talvez indo além.
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Recompensa da popularidade.

Outro trecho da entrevista que me chamou a atenção foi este:

“(…) o mundo real foi diminuído por este simulacro digital, que parece sempre mais importante do que nossa realidade, quando não é – ele deve estar a serviço da nossa realidade.”

Nossas representações digitais cada vez mais condicionam nossa existência. Ninguém quer ser linchado publicamente e nem ser deixado de fora dos seus círculos sociais, então é bom que se adeque. Pouco a pouco surgem cartilhas do que deve e do que não deve ser dito, e todos os grupos tem usas próprias.

Você é contra o desarmamento? É coxinha fascista de direita, com certeza. Ah, mas é a contra a herança e a favor da taxação das grandes fortunas? Então deve ser um comunistinha esquerdopata. É o dois? Bem, para a direita será de esquerda e para a esquerda será de direira. E sim, vai morrer sozinho, afogado em um mar informacional, onde a única certeza é a sua inadequação às opiniões dos outros.

E o problema não é apenas o rótulo atribuído, mas a nossa incapacidade de lidar coletivamente com a pluralidade de significados que a linguagem nos proporciona. Esta necessidade de rotular e esta incapacidade não são algo “natural do ser humano”, como o senso comum poderia afirmar, mas é fruto de como estamos estruturando nossas redes. As redes sociais, apesar do nome, promovem uma socialidade que atende à um modelo de negócio parasita, que nos molda cada vez mais e mais para produzirmos valor. E isso significa atrito, entropia e segregação. Em outras palavras, tretas e zuera viralizam, debate e pensamento não. Não sei se há algum caminho para a internet promover integração global, mas se existe sei que é longe das corporações.

* Há quem considere Whats App, Telegram e E-mail redes sociais. Eu não sou uma dessas pessoas.

** Todos valores arbitrários meus, mas que são alardeados como benefícios da internet e das redes sociais.

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Auto-ceticismo

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Lá pelos meus 12 ou 13 anos tive a oportunidade de ler Mago: A Ascensão, um jogo de RPG que afetou consideravelmente o meu modo de ver o mundo. Neste livro são apresentadas as regras do jogo e o cenário, e tem como fio condutor uma história mostrada em fragmentos. Nesta uma moça que desperta, ou seja, que realiza a maleabilidade da realidade e o seu potencial para alterá-la, torna-se uma maga, e partir de um certo ponto recebe orientações de um mestre para não se perder neste mundo magiko (com “k” mesmo). Em um dos fragmentos o mestre diz à ela algo como “duvide sempre da própria percepção, sempre questione sua sanidade, lembre-se sempre que a realidade percebida é quase sempre o que você quer perceber, conscientemente ou não”.

Ainda que tratasse de um jogo de ficção, sem conexão com a realidade aquilo me marcou. Desde então todos os dias quando acordo faço a pergunta “Estou louco? O que estou percebendo é real?”. Hoje com meus trinta anos me dei conta que já passei mais de metade da minha vida com este questionamento. Tenho a impressão que se eu parar de fazê-lo corro o risco de tornar-me babaca cósmico, um cretino que acredita que sua percepção da realidade tenha privilégio sobre a dos outros.

Tempos de desobediência civil

Enquanto houver autoridade acredito que é sempre tempo de desobediência civil, mas essa necessidade grita em tempos que a lei e a justiça podem ser compradas e as necessidades do povo leiloadas por grupos de empresários inescrupulosos.

Henry Thoreau propôs há algum tempo de simplesmente não obedecermos as leis. Desobedecer. Partir o véu de cristal da autoridade. Um governo não tem como existir se aqueles que o compõe não o reconhecem e não fazem nada para mantê-lo, como pagar impostos, respeitar ordens de autoridades e outras obrigações civis.

Clique na imagem para baixar o livro “Desobediência Civil” e mirar-se no exemplo de Loukanikos.

Claro que em certas posições é mais fácil fazê-lo: um homem branco tem maiores chances de não ser incomodado por policiais do que um homem negro. E essa disparidade só cresce quando mudamos os personagens para mulheres, por exemplo, ou gays. Nesta hora acredito que é precíso ter malícia, manha, malandragem, mandinga…

Em 2013 escrevemos, um bom amigo (Renato Salgado) e eu, um texto sobre estratégia de como lidar com forças policias e vou copiá-lo abaixo (editei):

Mandinga Urbana

Capoeira que é bom não cai
E se um dia ele cai
Cai bem

Berimbau, Vinícius de Moraes e Tom Jobim

Forças policiais são uma imensa hidra, grande e forte. Treinadas em variadas formas para o combate, possuem armaduras e outros tipos de proteção, armamentos e respaldo do estado para usar da violência de maneira (quase) indiscriminada. Lenta e burra, a unidade é o que dá força às suas cabeças, à marcha da falange, porém as cabeças não tem nenhuma autonomia isoladas, pelo condicionamento à ausência de pensamento e por estar sempre aguardando o comando da cabeça central, sem a qual a besta-fera é inerte.

O cidadão comum, por outro lado, com pouca freqüência tem treinamento em combate, mas nenhum respaldo para ações, mesmo que em defesa própria. Por outro lado pode ser ágil e independente, encontrar armas e proteções improvisadas em todo o mundo, inclusive – e especialmente – na mentira.

Enfrentar um adversário ou inimigo é mais um problema estratégico do que moral. Habita o senso comum o herói que se faz na figura do sujeito destemido e enfrenta uma força muito maior que a sua munido apenas de coragem. Muito interessante em narrativas, não o é em termos estratégicos. Enfrentar uma força maior de frente é, na maioria dos casos, uma declaração de suicídio. Uma unidade policial, como a tropa de choque, está preparada e esperando pelo confronto, possuem um plano estratégico e uma organização para uma melhor eficiência de suas ações. A besta-fera não é invencível, mas é necessário pensar outras formas de luta para enfrentar esses grupos, para além de se lançar de frente.

A Hidra é sedenta de sangue, não possui propósito além da violência para a manutenção de uma tirania. Que se faça uso disso: veio para lutar, mas não terá ninguém para enfrentar. Fruste-a. Ao enfrentar uma força policial não conteste, agrida ou se oponha a sua autoridade. A dissimulação é uma arma muito funcional contra a força física –  não há em quem bater se os corpos não se engajam. A luta não deve ser avaliada por uma perspectiva moral, fugir não é necessariamente covardia, um movimento tem que atingir distintos sentidos e direções se quer uma maior eficiência. Deixar os policiais marchando sozinhos é uma estratégia, se organizar em outros lugares e recomeçar a luta não é fugir. A força policial quer dispersar a multidão e podemos dar isso a ela: deixe essa rua, há muitas outras para serem ocupadas. Os policiais precisam se re-organizar sempre e para isso terão que levar sempre o peso de todo seu aparato repressivo, o peso da sua imensidão.

O manifestante não precisa participar do protesto como indivíduo – portanto fraco – mas como coletivo, parte do bando, este sim forte, fluido, capaz de escorrer pelos becos da cidade e tomar forma em outro lugar. Capaz de confundir mil cabeças, dispersar-se e se organizar longe da Besta-Fera. Orgulho individual pouco importa para o bando. Abaixar a cabeça para o policial, dizer “sim senhor” e dar o que ele quer, não é ceder, pois a rasteira vem quando o inimigo relaxa, algo que acontece com frequência após alcançar êxito ou ter seu ego alimentado. O bando pode ser ágil e não precisa se engajar em batalhas que vá perder.  Que nossa militância seja ardilosa e encontre sua força nas frestas.

Imagem utilizada na publicação original

Sempre é possível resistir

Essa é uma contribuição para aqueles que lutam contra o golpe, contra a implantação de um projeto de governo que foi derrotado nas urnas, contra os ratos que se alimentaram do cadáver da democracia há 40 anos atrás  agora retornam de barrigas vazias, buscando mais.

Quem já entrou em combate ou já observou alguns sabe a vantagem que a iniciativa confere. Aquele desfere o primeiro golpe ganha alguns instantes de vantagem nos quais o oponente encontra-se surpreso e com frequência estes instantes são decisivos para o fim da luta, que termina quase sempre não pela parte derrotada não ter mais condições de combater, mas por acreditar que não tem mais como fazê-lo.

Para nós da camada inferior do poder isso é quase sempre verdade.

Neste momento aqueles que assumiram governo federal estão fazendo isso, tomando a iniciativa e destruindo conquistas sociais que levaram quase uma década para consolidar. Exemplos não faltam: a extinção do Ministério da Cultura e do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, o plano Ponte para o Futuro, aumento da idade mínima para aposentadoria dentre outros

Este vídeo tem uma finalidade política e não necessariamente marcial. O movimento realizado aqui para escapar deste tipo de imobilização requer treino. Caso queira aprender procure um bom professor de arte marcial.

[Vendo] Star Wars: The Jedi Path Deluxe Edition

Estou vendendo meu livro “The Jedi Path: A Manual for Students of the Force – Vault Edition”. Ele está em perfeito estado e com todos os itens originais impecáveis (cabelinho do Obi Wan, plano de Sabre de Luz do Luke desenhado num guardanapo, patch do rogue squadron, página “queimada”, medalha da aliança rebelde etc).

Valor: R$360 (frete por conta do comprador, podemos combinar de entrega em mãos na região de Campinas)

Seguem as fotos e o vídeo:

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O livro foi escrito pelos mestres Fae Coven, Gande Mestre Jedi e membro do Conselho Jedi; Crix Sunburris, Jedi Ace piloto de caça; Restelly Quist, Jedi Bibliotecário Chefe; Skarch Vaunk, Jedi Battlemaster e especialista em sabre de luz; Bowspritz, Jedi Biologist e especialista na Living Force; Sabla-Mandibu, Jedi Seer e especialista em Holocron; Morrit Ch’gally, Jedi Recruiter; Gal-Stod Slagistrough, Jedi líder dos Agricultural Corps.

Kanji e conhecimentos latentes

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adj (lat latente) 1 Que não se vê, que está oculto. 2 Dissimulado. 3 Subentendido. 4 Diz-se da atividade ou caráter que, em certo momento, não se manifesta, mas que é capaz de se revelar ou desenvolver quando as circunstâncias sejam favoráveis ou se atinja o momento próprio para isso.

Neste semestre minha companheira e eu começamos a estudar japonês e tivemos que conhecer 3 formas de escrever:

  • Hiragana -> Forma de escrita silábica para palavras de origem japonesa
  • Katakana -> Forma de escrita silábica para palavras de origem estrangeira, além onomatopéias, termos técnicos ou científicos e às vezes nomes de empresas japonesas.
  • Kanji -> Forma de escrita ideográfica.

O interesse surgiu pelo Budo Taijutsu, arte marcial que praticamos e por conta de uma lição de casa que me foi passada na última ida ao Japão: “Sensei, o senhor tem alguma recomendação para eu focar meu treino, uma deficiência ou algo assim?” “Sim, aprenda japonês.”

Muitos curiosos sobre cultura japonesa (eu incluso) gostam de saber sobre os kanji, apesar da dificuldade, e é sobre eles este post.

Os kanji derivam de caracteres antigos chineses, importados provavelmente durante o século VI. Seus significados são muito próximos, mas o filtro cultural de quem lê (um chinês ou um japonês) pode afetar bastante a interpretação.

Outro detalhe que vale notar é o que aconteceu com os ideogramas na China: eles foram simplificados durante a Revolução Cultural de Mao Zedong, para aumentar as taxas de alfabetização. Com isso mais pessoas conseguem ler na nova forma de escrita (chinês simplificado), porém encontram dificuldades com o chinês tradicional. Em alguns lugares que ficaram foram da influência de Mao a escrita tradicional persistiu, como Taiwan e Hong Kong.

Agora vamos a parte mais legal, algo que aprendi nesta última viagem e complementei com uma pesquisa nesta semana. Tudo começa com um mito.

Amaterasu Omikami é a deusa do sol, a divindade mais importante da religião Shinto (ou xintoísmo) e soberana de Takama no Hara, a Planície Superior Celestial. Suzanoo, seu irmão, teve muitas desavenças com ela (uma dela foi jogar um cavalo esfolado em seu tear), até que Amaterasu resolveu se trancar numa caverna (chamada Ama-no-Iwato), com uma rocha imensa na entrada, e o mundo se escureceu.

Os deuses tentaram de todas as maneiras convencer Amaterasu a sair de lá:

  • Galos foram colocados na porta da caverna para que seus cacarejos dessem a impressão que era o momento do sol nascer.
  • Uma árvore Sakaki foi plantada em frente à caverna e decorada com jóias brilhantes (magatama), tecidos alvos e um espelho (yata no kagami).
  • A deusa Amenouzume (ou Ama-no-Uzeme) dançou loucamente na frente da caverna, para que os outros deuses se divertissem.

O barulho dos deuses se divertindo com a dança do lado de fora da caverna chamou a atenção de Amaterasu, que resolveu colocar a cabeça para fora e ver o que estava acontecendo. A primeira coisa que ela viu foi seu reflexo no espelho, que a maravilhou e distraiu. O deus Ame-no-tajikara-wo, muito forte, a puxou para fora, Tuto-Tamu amarrou em suas costas uma vara com palha trançada e lhe disse que ela não poderia mais se esconder, pois o mundo estava novamente banhado em sua luz radiante.

Ah, alguém (não sei quem) atirou a pedra para longe e onde ela caiu existe hoje a cidade de Togakushi, cidade natal da Togakure Ryu, uma das escolas de ninjutsu da Bujinkan. Togakushi seria algo como “Cidade da Porta Oculta”, se referindo à porta que fechava a caverna de Amaterasu, onde ela se ocultava.

A história apresenta muito artefatos presentes no Shinto, mas vou falar do kagami. O kanji utilizado para representá-lo é o seguinte:

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Ele é formado por dois outros kanji, kage (sombra ou imagem) + mi (ver, enxergar). Notar que o kage torna-se kaga, na nova palavra formada. Pode ser interpretado como “ver a sombra” ou “ver a imagem”.

Um amigo praticante do Shinto no santuário de Sakuragi contou que quando se olha no 鏡(kagami) e se remove o ga ( 我, kanji que significa “ego”) o que sobra é kami ( 神 ), kanjji que significa divindade. Ou seja, quando nos olhamos no espelho e removemos nosso ego o que resta é uma divindade.

Por esta divindade acredito que se refira ao deus interior que praticantes do Yoga se referem ao dizerem “namastê” (“O Deus que habita no meu coração, saúda o Deus que habita o seu coração”, segundo o Baghavad Gita); a natureza búdica de todos os seres humanos,  segundo os budistas; a parte de Deus que nos cabe, segundo os cabalistas e assim por diante.

 O famoso espelho, guardado Ise Jingū, um santiário Shinto. Não, não parece o que chamamos de espelho e nem consigo ver um reflexo. Não me pergunte.

O famoso espelho, guardado Ise Jingū, um santiário Shinto. Não, não parece o que chamamos de espelho e nem consigo ver um reflexo. Não me pergunte.

Há um trocadilho, como podemos ver, um passeio entre os sons do ideograma (kagami) que trazem um novo ideograma (Ga). É uma interpretação, é claro, uma escolha de leitura, mas me faz pensar o quanto na se pode aprender escavando a linguagem, ao realizar estes exercícios outras vezes buscando aprender o que da história e cultura foi codificado na língua.

Sobre o mito ouvi interpretações diferentes de pessoas diferentes que acabei não colocando no corpo do texto, mas pode interessar:

  • Amaterasu é uma deusa ligada também à beleza e à pureza, vaidosa. Ela saiu da caverna porque ao ouvir os deuses gargalhando e se divertindo teve a impressão que havia alguém capaz de substituí-la e ela queria ver quem era esse alguém. Ao sair da caverna ela viu o espelho e percebeu que essa pessoa era ela mesma.
  • Amaterasu teve sua divindade esquecida pela tristeza e vaidade (ego) e a experiência toda que termina com ela se olhando no espelho a permitiu reencontrar sua divindade.

O duplipensar nosso de cada dia

Uns meses atrás compartilhei no Facebook o seguinte quadrinho que compara duas obras de Orwell e Huxley. Vi na timeline de um amigo e achei interessante:

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E rolou uma discussão muito bacana na minha postagem de vários amigos de círculos e áreas de conhecimento diferente, mas como o Facebook é lamentável enquanto local de referenciação de informação não consegui achar a conversa e achei melhor gastar o tempo aqui escrevendo.

Sobre a tirinha acredito que o autor fez uma leitura rasa demais do Orwell e não aborda o que considero o elemento mais poderoso de 1984 (link direto para download), que é o duplipensar. Bem, o que é isso? Temos a explicação do próprio Orwell em seu livro:

Saber e não saber, estar consciente de sua completa sinceridade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e ainda assim acreditar em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade e apropriar-se dela, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer o quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza máxima: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” era necessário usar o duplipensar.

Tem um video do Ted-Ed bacana que explica bem:

Basicamente é um processo de assimilar duas ideias antagônicas e fazê-las conviver como se não fossem. Se partirmos do ponto relativamente seguro de que a nossa mente é moldada pela nossa linguagem o duplipensar é uma espécie de deficiência cognitiva, não fruto de uma má formação biológica, mas de uma má formação cultural e política. Trata-se de um processo cada vez mais cotidiano encadeiamento de conceitos que eventualmente nos levam a lugares terríveis, mas que no fim nos parecem “naturais”, pois nossas mentes já estão moldadas, em certa medida, com e pelo duplipensar. Esta cena do fime Detachment traz alguns exemplos cotidianos disso:

Sobre a mente moldada pela linguagem recomendo o documentário Maybe Logic: The Lives and Ideas of Ribert Anton Wilson, do qual alguma boa alma recortou um trecho central e legendou para nós:

É só isso o post, para compartilhar uma sequência de materiais que vi e lembranças que tive. E toda vez que venho a este assunto sou ainda mais grato à minha boa amiga Raquel Torres, que me deu o livro 1984 com um bônus de receita para emagrecer. =)

Recital Sarmouni e Gurdjief

A Irmandade Sarmoug é relatada por George Gurdjieff como uma irmandade Sufi existente no coração da Ásia (sabe-se lá onde ele fica). Guardiões de conhecimentos antigos, este recital parece trazer uma amostra deste caminho de sabedoria:

Aquele que sabe e não sabe que sabe: ele está adormecido. Deixe-o tornar-se um, completo. Deixe-o ser desperto.
Aquele que soube, mas não sabe: deixe-o ver novamente o começo de todas as coisas.
Aquele que não deseja saber e ainda assim diz que precisa: deixe-o ser guiado para a segurança e para a luz.
Aquele que não sabe e sabe que não sabe: deixe-o, através deste conhecimento, saber.
Aquele que não sabe, mas pensa que sabe: liberte-o da confusão desta ignorância.

Aquele que sabe e sabe que ELE É: ele é sábio. Deixe-o ser seguido. Por apenas sua presença um homem pode ser transformado.

Eu que sei e que não sei que sei: deixe-me tornar um, completo. Deixe-me ser desperto.
Eu que soube, mas não sei: deixe-me ver novamente o começo de todas as coisas.
Eu que não desejo saber e ainda assim digo que preciso: deixe-me ser guiado para a segurança e para a luz.
Eu que não sei e sei que não sei: deixe-me, através deste conhecimento, saber.
Eu que não sei e penso que sei: liberte-me da confusão desta ignorância.

Aquele que sabe e sabe que ELE É: ele é sábio. Deixe-o ser seguido. Por apenas sua presença um homem pode ser transformado.

Nós que sabemos e que não sabemos que sabemos: deixe-nos tornar um, completos. Deixe que tornemo-nos despertos.
Nós que soubemos, mas não sabemos: deixe-nos ver novamente o começo de todas as coisas.
Nós que não desejamos saber e ainda assim dizemos que precisamos: deixe-nos ser guiados para a segurança e para a luz.
Nós que não sabemos e sabemos que não sabemos: deixe-nos, através deste conhecimento, saber.
Nós que não sabemos e pensamos que sabemos: liberte-nos da confusão desta ignorância.

Aquele que sabe e sabe que ELE É: ele é sábio. Deixe-o ser seguido. Por apenas sua presença um homem pode ser transformado.

Assim [foi?] com nossos antepassados.
Assim {seja?] com nossos sucessores.
Assim [seja?] conosco.
Nós firmamos este compromisso.
Deixe que seja assim.

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O simpático Gurdjief

 Gurdjief é uma figura bastante ímpar que entrei em contato há pouco tempo, através de um bom amigo que me passou o livro Beelzebu’s Tales to his Grandson (Relatos de Beelzebub ao seu neto – link direto para download) e do Jodorowyski, que conheceu Reyna D’Assia, filha de Gurdjief, e passou por uma tempestade atípica durante e depois do encontro.

Há um filme excelente do diretor Peter Brook que conta um pouco dos primeiros anos de Gurdjief, baseado em sua autobiografia Meeting with Remarkable Men (Encontro com homens notáveis). Segue uma cena forte do filme:

E o link para download por torrent (não sabe usar torrent? Veja aqui como fazer):

https://kat.cr/gurdjieff-meetings-with-remarkable-men-avi-t3519647.html

Também há este documentário russo chamado Sou Gurdjief e não irei morrer! (com legendas em inglês):