O duplipensar nosso de cada dia

Uns meses atrás compartilhei no Facebook o seguinte quadrinho que compara duas obras de Orwell e Huxley. Vi na timeline de um amigo e achei interessante:

huxley_orwell1

E rolou uma discussão muito bacana na minha postagem de vários amigos de círculos e áreas de conhecimento diferente, mas como o Facebook é lamentável enquanto local de referenciação de informação não consegui achar a conversa e achei melhor gastar o tempo aqui escrevendo.

Sobre a tirinha acredito que o autor fez uma leitura rasa demais do Orwell e não aborda o que considero o elemento mais poderoso de 1984 (link direto para download), que é o duplipensar. Bem, o que é isso? Temos a explicação do próprio Orwell em seu livro:

Saber e não saber, estar consciente de sua completa sinceridade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões que se cancelam mutuamente, sabendo que se contradizem, e ainda assim acreditar em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade e apropriar-se dela, crer na impossibilidade da Democracia e que o Partido era o guardião da Democracia; esquecer o quanto fosse necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois torná-lo a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Essa era a sutileza máxima: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do ato de hipnose que se acabava de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” era necessário usar o duplipensar.

Tem um video do Ted-Ed bacana que explica bem:

Basicamente é um processo de assimilar duas ideias antagônicas e fazê-las conviver como se não fossem. Se partirmos do ponto relativamente seguro de que a nossa mente é moldada pela nossa linguagem o duplipensar é uma espécie de deficiência cognitiva, não fruto de uma má formação biológica, mas de uma má formação cultural e política. Trata-se de um processo cada vez mais cotidiano encadeiamento de conceitos que eventualmente nos levam a lugares terríveis, mas que no fim nos parecem “naturais”, pois nossas mentes já estão moldadas, em certa medida, com e pelo duplipensar. Esta cena do fime Detachment traz alguns exemplos cotidianos disso:

Sobre a mente moldada pela linguagem recomendo o documentário Maybe Logic: The Lives and Ideas of Ribert Anton Wilson, do qual alguma boa alma recortou um trecho central e legendou para nós:

É só isso o post, para compartilhar uma sequência de materiais que vi e lembranças que tive. E toda vez que venho a este assunto sou ainda mais grato à minha boa amiga Raquel Torres, que me deu o livro 1984 com um bônus de receita para emagrecer. =)

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