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Kanji e conhecimentos latentes

la.ten.te
adj (lat latente) 1 Que não se vê, que está oculto. 2 Dissimulado. 3 Subentendido. 4 Diz-se da atividade ou caráter que, em certo momento, não se manifesta, mas que é capaz de se revelar ou desenvolver quando as circunstâncias sejam favoráveis ou se atinja o momento próprio para isso.

Neste semestre minha companheira e eu começamos a estudar japonês e tivemos que conhecer 3 formas de escrever:

  • Hiragana -> Forma de escrita silábica para palavras de origem japonesa
  • Katakana -> Forma de escrita silábica para palavras de origem estrangeira, além onomatopéias, termos técnicos ou científicos e às vezes nomes de empresas japonesas.
  • Kanji -> Forma de escrita ideográfica.

O interesse surgiu pelo Budo Taijutsu, arte marcial que praticamos e por conta de uma lição de casa que me foi passada na última ida ao Japão: “Sensei, o senhor tem alguma recomendação para eu focar meu treino, uma deficiência ou algo assim?” “Sim, aprenda japonês.”

Muitos curiosos sobre cultura japonesa (eu incluso) gostam de saber sobre os kanji, apesar da dificuldade, e é sobre eles este post.

Os kanji derivam de caracteres antigos chineses, importados provavelmente durante o século VI. Seus significados são muito próximos, mas o filtro cultural de quem lê (um chinês ou um japonês) pode afetar bastante a interpretação.

Outro detalhe que vale notar é o que aconteceu com os ideogramas na China: eles foram simplificados durante a Revolução Cultural de Mao Zedong, para aumentar as taxas de alfabetização. Com isso mais pessoas conseguem ler na nova forma de escrita (chinês simplificado), porém encontram dificuldades com o chinês tradicional. Em alguns lugares que ficaram foram da influência de Mao a escrita tradicional persistiu, como Taiwan e Hong Kong.

Agora vamos a parte mais legal, algo que aprendi nesta última viagem e complementei com uma pesquisa nesta semana. Tudo começa com um mito.

Amaterasu Omikami é a deusa do sol, a divindade mais importante da religião Shinto (ou xintoísmo) e soberana de Takama no Hara, a Planície Superior Celestial. Suzanoo, seu irmão, teve muitas desavenças com ela (uma dela foi jogar um cavalo esfolado em seu tear), até que Amaterasu resolveu se trancar numa caverna (chamada Ama-no-Iwato), com uma rocha imensa na entrada, e o mundo se escureceu.

Os deuses tentaram de todas as maneiras convencer Amaterasu a sair de lá:

  • Galos foram colocados na porta da caverna para que seus cacarejos dessem a impressão que era o momento do sol nascer.
  • Uma árvore Sakaki foi plantada em frente à caverna e decorada com jóias brilhantes (magatama), tecidos alvos e um espelho (yata no kagami).
  • A deusa Amenouzume (ou Ama-no-Uzeme) dançou loucamente na frente da caverna, para que os outros deuses se divertissem.

O barulho dos deuses se divertindo com a dança do lado de fora da caverna chamou a atenção de Amaterasu, que resolveu colocar a cabeça para fora e ver o que estava acontecendo. A primeira coisa que ela viu foi seu reflexo no espelho, que a maravilhou e distraiu. O deus Ame-no-tajikara-wo, muito forte, a puxou para fora, Tuto-Tamu amarrou em suas costas uma vara com palha trançada e lhe disse que ela não poderia mais se esconder, pois o mundo estava novamente banhado em sua luz radiante.

Ah, alguém (não sei quem) atirou a pedra para longe e onde ela caiu existe hoje a cidade de Togakushi, cidade natal da Togakure Ryu, uma das escolas de ninjutsu da Bujinkan. Togakushi seria algo como “Cidade da Porta Oculta”, se referindo à porta que fechava a caverna de Amaterasu, onde ela se ocultava.

A história apresenta muito artefatos presentes no Shinto, mas vou falar do kagami. O kanji utilizado para representá-lo é o seguinte:

152-1-mirror

Ele é formado por dois outros kanji, kage (sombra ou imagem) + mi (ver, enxergar). Notar que o kage torna-se kaga, na nova palavra formada. Pode ser interpretado como “ver a sombra” ou “ver a imagem”.

Um amigo praticante do Shinto no santuário de Sakuragi contou que quando se olha no 鏡(kagami) e se remove o ga ( 我, kanji que significa “ego”) o que sobra é kami ( 神 ), kanjji que significa divindade. Ou seja, quando nos olhamos no espelho e removemos nosso ego o que resta é uma divindade.

Por esta divindade acredito que se refira ao deus interior que praticantes do Yoga se referem ao dizerem “namastê” (“O Deus que habita no meu coração, saúda o Deus que habita o seu coração”, segundo o Baghavad Gita); a natureza búdica de todos os seres humanos,  segundo os budistas; a parte de Deus que nos cabe, segundo os cabalistas e assim por diante.

 O famoso espelho, guardado Ise Jingū, um santiário Shinto. Não, não parece o que chamamos de espelho e nem consigo ver um reflexo. Não me pergunte.

O famoso espelho, guardado Ise Jingū, um santiário Shinto. Não, não parece o que chamamos de espelho e nem consigo ver um reflexo. Não me pergunte.

Há um trocadilho, como podemos ver, um passeio entre os sons do ideograma (kagami) que trazem um novo ideograma (Ga). É uma interpretação, é claro, uma escolha de leitura, mas me faz pensar o quanto na se pode aprender escavando a linguagem, ao realizar estes exercícios outras vezes buscando aprender o que da história e cultura foi codificado na língua.

Sobre o mito ouvi interpretações diferentes de pessoas diferentes que acabei não colocando no corpo do texto, mas pode interessar:

  • Amaterasu é uma deusa ligada também à beleza e à pureza, vaidosa. Ela saiu da caverna porque ao ouvir os deuses gargalhando e se divertindo teve a impressão que havia alguém capaz de substituí-la e ela queria ver quem era esse alguém. Ao sair da caverna ela viu o espelho e percebeu que essa pessoa era ela mesma.
  • Amaterasu teve sua divindade esquecida pela tristeza e vaidade (ego) e a experiência toda que termina com ela se olhando no espelho a permitiu reencontrar sua divindade.
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