O dano das redes sociais ao coletivo

douglas
Fotografia de Seth Kushner/Retna Ltd/Corbi

Douglas Rushkoff é um escritor conhecido pelo seu envolvimento com temas relacionados à mídia, cibercultura, tecno-utopias entre outros. Em uma entrevista para o jornal britânico The Guardian este trecho me chamou muito a atenção:

“O Facebook irá lhe vender o seu futuro antes mesmo de você chegar lá, eles usarão algoritmos de previsão para saber qual o seu futuro mais provável e tentarão torná-lo ainda mais provável. Eles ficarão ainda melhores em programar você – eles reduzirão a sua espontaneidade.”
O Rushkoff é um sujeito com ideias com as quais tenho certa reserva, mas são interessantes de ser ler. Esta entrevista me colocou para pensar um pouco.
Toda vez que vou postar algo penso como aquilo irá repercutir, sempre tendo em vista a estrutura oferecida pelo Facebook, única rede social que utilizo hoje*. Acredito que seja importante fazer essa reflexão sempre, inclusive no mundo físico. Todos sabemos disso, de um modo ou de outro. Mudamos sem perceber a forma de falar em ambientes diferentes, o que inclui temas da fala, escolha de palavras, entonação, liberdade em relação ao que se sente à vontade para falar ou não, dentre outros elementos que linguistas sabem precisar melhor do que eu.
No mundo virtual esta reflexão está condicionada a um modelo de individuo bastante particular, privilegiado pela estrutura da rede social em questão, no caso o Facebook, a maior rede social da atualidade (1,86 bilhões de usuários ativos em 2016, contra “apenas” 1 bilhão da segunda maior, o Youtube). Nesta rede social o valor social – como estou chamando a abstração que que determina o alcance dos conteúdos, opinativos ou não  –não é dado pela capacidade da pessoa de articular argumentos, promover discussões, criar laços empáticos ou tomar parte de mudanças e transformações**, mas no quanto ela é capaz de arrebanhar outras pessoas que “curtem e compartilham” seus conteúdos, que “concordam” (mesmo que não entendam como ou o que isso signifique), que acham que o indivíduo “as representa”. Aparentemente o valor é dado pela aprovação das multidões, pela popularidade das opiniões. Ou seja, um indivíduo cujas ideias e ações sejam menos complexas e mais “meméticas”, possíveis de ser condensadas em uma frase de efeito, uma imagem ou um vídeo curto, capazes de viralizar, tendem a ter mais valor social, alcance, do que alguém cujas ideias incomodem, instiguem a pensar.
Reconheço que exista valor nos meme para a propagação de ideias, mas eles têm limitações que nem sempre ficam claras. Um meme possui múltiplas possibilidades de interpretação, quase nunca explícitas no ato de compartilhar, mas o interlocutor lê o compartilhamento como quer, acusa ou apoia. E com frequência o meme é tomado como a totalidade do pensamento do indivíduo.
No Facebook podemos observar uma estrutura que reduz nossa existência virtual à avatares bastante limitados, voltados para alimentar um modelo de negócios baseado em marketing direcionado, produção de conteúdos rápidos (tipo fast food) e mineração de dados para Big Data. Isso manifesta-se no tipo de conteúdo que consegue alcance, nas escolhas do algoritmo sobre o que aparecerá mais ou menos, no maior alcance de posts pagos dentre outros.
Podemos falar o que queremos nas redes e alcançar muitas pessoas, contanto de façamos do modos que eles propõe: texto curtinho? Vira imagem com cor forte no Facebook. Textão? Uhm, circula menos, mas circula. Post que poderia estar direto no Facebook mas está no seu blog? Uhm, sei não, circula menos ainda. Como isso é decidido? Não temos acesso à estes critérios (algoritmos são “segredos comerciais”), mas não é absurdo afirmar que eles estão subordinados ao modelo de negócios do Facebook, que sim, têm ideologia, no caso Ideologia da Califórnia. Pepe Escobar vai descrever este fenômeno com um termo que gosto muito: opinião embrulhada em código.
Isso cada vez mais se estende ao mundo físico e molda nossas realidades. Mais credibilidade é dada à um post com 1000 compartilhamentos do que, por exemplo, à uma aula de um profissional que estudou um determinado assunto a fundo, junto de seus pares em uma universidade, que teve suas ideias submetidas à um crivo minimamente razoável. Não quero dizer que os conhecimentos acadêmicos necessariamente sejam superiores aos conhecimentos produzidos fora daquele espaço, apenas que é um tipo de conhecimento produzido com um método mais rigoroso do que popularidade, como é o caso de redes sociais.
Além disso a forma com que o indivíduo é exposto, não como parte de um coletivo, mas como um ponto separado do todo, o submete ao escrutínio moralista de todos os lados: direita, esquerda, alto e baixo. Pessoas com histórias de vida complexas são julgadas eternamente por uma postagem que muitas vezes tem menos de 140 caracteres fonéticos, por uma escolha de palavras (não que estas não mereçam um olhar atento). Pessoas são condenadas por um momento em que se esqueceram que um comentário no post de um amigo não é privado e que um espaço aparentemente social na verdade é um palco onde cada um está fazendo o seu próprio talk show esquizofrênico, que eventualmente fazem crossovers.
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Pessoas cujas vidas são obras complexas, com uma infinidade de nuances políticos, que variam ao longo do tempo, passam a ser julgadas pela pontual e descontextualizada moral do público. Quando isso acontece aparecem atrocidades como “Simone de Beauvoir é nazista”, “Che Guevara caçava gays”, “Mises destruiu da teoria de Karl Marx”. Estas boçalidades são celebradas por seguidores (termo ironicamente adequado) e quem as disse tem mais um incentivo para repetí-las, talvez indo além.
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Recompensa da popularidade.

Outro trecho da entrevista que me chamou a atenção foi este:

“(…) o mundo real foi diminuído por este simulacro digital, que parece sempre mais importante do que nossa realidade, quando não é – ele deve estar a serviço da nossa realidade.”

Nossas representações digitais cada vez mais condicionam nossa existência. Ninguém quer ser linchado publicamente e nem ser deixado de fora dos seus círculos sociais, então é bom que se adeque. Pouco a pouco surgem cartilhas do que deve e do que não deve ser dito, e todos os grupos tem usas próprias.

Você é contra o desarmamento? É coxinha fascista de direita, com certeza. Ah, mas é a contra a herança e a favor da taxação das grandes fortunas? Então deve ser um comunistinha esquerdopata. É o dois? Bem, para a direita será de esquerda e para a esquerda será de direira. E sim, vai morrer sozinho, afogado em um mar informacional, onde a única certeza é a sua inadequação às opiniões dos outros.

E o problema não é apenas o rótulo atribuído, mas a nossa incapacidade de lidar coletivamente com a pluralidade de significados que a linguagem nos proporciona. Esta necessidade de rotular e esta incapacidade não são algo “natural do ser humano”, como o senso comum poderia afirmar, mas é fruto de como estamos estruturando nossas redes. As redes sociais, apesar do nome, promovem uma socialidade que atende à um modelo de negócio parasita, que nos molda cada vez mais e mais para produzirmos valor. E isso significa atrito, entropia e segregação. Em outras palavras, tretas e zuera viralizam, debate e pensamento não. Não sei se há algum caminho para a internet promover integração global, mas se existe sei que é longe das corporações.

* Há quem considere Whats App, Telegram e E-mail redes sociais. Eu não sou uma dessas pessoas.

** Todos valores arbitrários meus, mas que são alardeados como benefícios da internet e das redes sociais.

Algumas leituras que me instigaram este texto:

https://www.cartacapital.com.br/blogs/outras-palavras/a-silenciosa-ditadura-do-algoritmo

https://www.cartacapital.com.br/revista/899/facebook-google-politica

https://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-baba-no-meme-o-meme-nas-redes-e-a-velha-a-fiar

http://www.anpocs.com/index.php/encontros/papers/35-encontro-anual-da-anpocs/gt-29/gt01-21/837-singularidade-transhumanismo-e-a-ideologia-da-california/file

http://cibercultura.fortunecity.ws/vol2/idcal.html

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