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Auto-ceticismo

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Lá pelos meus 12 ou 13 anos tive a oportunidade de ler Mago: A Ascensão, um jogo de RPG que afetou consideravelmente o meu modo de ver o mundo. Neste livro são apresentadas as regras do jogo e o cenário, e tem como fio condutor uma história mostrada em fragmentos. Nesta uma moça que desperta, ou seja, que realiza a maleabilidade da realidade e o seu potencial para alterá-la, torna-se uma maga, e partir de um certo ponto recebe orientações de um mestre para não se perder neste mundo magiko (com “k” mesmo). Em um dos fragmentos o mestre diz à ela algo como “duvide sempre da própria percepção, sempre questione sua sanidade, lembre-se sempre que a realidade percebida é quase sempre o que você quer perceber, conscientemente ou não”.

Ainda que tratasse de um jogo de ficção, sem conexão com a realidade aquilo me marcou. Desde então todos os dias quando acordo faço a pergunta “Estou louco? O que estou percebendo é real?”. Hoje com meus trinta anos me dei conta que já passei mais de metade da minha vida com este questionamento. Tenho a impressão que se eu parar de fazê-lo corro o risco de tornar-me babaca cósmico, um cretino que acredita que sua percepção da realidade tenha privilégio sobre a dos outros.

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82 ensinamentos recebidos por Jodorowsky

Este é o Jodô.
Este é o Jodô.
Estes 82 ensinamentos foram publicados na obra The Spiritual Journey of Alejandro Jodorowsky (link para download direto), e foram entregues ao Jodô por Reyna d’Assia, filha de George Gurdjieff, um mestre espiritual. Jodô relacionou-se carnal e espiritualmente com Reyna, que apontou de onde partiam seus problemas: a dor de ter vindo de uma mãe de vagina muda.
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Segue o trecho do livro onde os ensinamentos são apresentados:
[Jodorowsky]: “Reyna, você está me dizendo contos de fadas! Estes objetivos são 100% utopicos ‒ e mesmo que fossem verdadeiros, qual seria o primeiro passo neste caminho?
[Reyna d’Assia]: Quem quer que deseje alcançar o supremo objetivo deve primeiro mudar seus hábitos, conquistar sua preguiça e tornar-se um ser humano moralmente elevado. Para sermos fortes nas grandes coisas precisamos ser também nas pequenas
[Jodorowsky]: Como?
[Reyna d’Assia]: “Fomos educados de maneiras muito ruins. Vivemos num mundo de competição, no qual honestidade é sinônimo de ingenuidade. Devemos primeiro desenvolver bons hábitos. Alguns podem parecer simples, mas são muito difíceis de realizar. Ao acreditar que eles são óbvios falhamos em perceber que eles são a chave para a conciência imortal. Agora eu lhe ofereço o o ditar dos mandamentos que meu abençoado pai me ensinou…
E são eles:
  1. Ancore sua atenção em você. Este consciente em cada momento sobre o que você está pensando, sentindo, percebendo, desejando e fazendo.
  2. Sempre termine o que começou
  3. O que quer que esteja fazendo, faça da melhor maneira possível.
  4. Não se apegue a nada que possa lhe destruir ao longo do tempo.
  5. Desenvolva sua generosidade ‒ mas secretamente.
  6. Trate a todos como se ele ou ela fossem parentes ou pessoas próximas.
  7. Organize o que você desorganizou.
  8. Aprenda a receber e oferecer agradecimentos por cada presente e dom recebidos.
  9. Pare de se definir.
  10. Não minta ou roube, pois você mente para você e rouba de você.
  11. Ajude seus vizinhos, mas não os torne dependentes.
  12. Não encoraje outros a lhe imitarem.
  13. Faça planos de trabalho e os cumpra.
  14. Não ocupe muito espaço.
  15. Não faça movimentos ou sons inúteis.
  16. Se lhe falta fé, finja que tem.
  17. Não se permita impressionar por personalidades fortes.
  18. Não olhe para ninguém ou para nada como se fossem suas posses.
  19. Divida de maneira justa.
  20. Não seduza.
  21. Coma e durma somente o necessário.
  22. Não fale de seus problemas pessoais.
  23. Não expresse julgamento ou criticismo quando você ignora grande parte dos fatores envolvidos.
  24. Não estabeleça amizades inúteis.
  25. Não siga modas.
  26. Não venda seu peixe (ou você mesmo).
  27. Respeite os contrato que assinou.
  28. Seja pontual.
  29. Nunca inveje a sorte ou o sucesso de outros.
  30. Não fale mais do que o necessário.
  31. Não pense nos ganhos que seu trabalho proporcionará.
  32. Não ameace ninguém.
  33. Mantenha suas promessas.
  34. Quando estiver numa discussão, coloque-se no lugar da outra pessoa.
  35. Admita que alguém pode ser superior à você.
  36. Não elimine, transmute.
  37. Conquiste seus medos, pois cada um deles representa um desejo camuflado.
  38. Ajude os outros a se ajudarem.
  39. Conquiste suas aversões e aproxime-se daqueles que lhe inspiram rejeição.
  40. Não reaja ao que os outros dizem de você, sejam elogios ou críticas/culpas (blame).
  41. Transforme eu orgulho em dignidade.
  42. Transforme sua ira em criatividade.
  43. Transforme sua ganância em respeito pelo que é belo.
  44. Transforme sua inveja em admiração pelos valores dos outros.
  45. Transforme seu ódio em caridade.
  46. Não vanglorie-se nem insulte-se.
  47. Trate aquilo que não lhe pertence como se pertencesse.
  48. Não reclame.
  49. Desenvolva sua imaginação.
  50. Nunca dê ordens para ter a satisfação de ser obedecido.
  51. Pague pelos serviços que lhe prestarem.
  52. Não faça pregações das duas ideias ou dos seus trabalhos.
  53. Não tente fazer ninguém sentir por você emoções como dó, admiração, simpatia ou cumplicidade.
  54. Não tente distinguir-se através da aparência.
  55. Nunca contradiga, ao contrário, permaneça em silêncio.
  56. Não acumule débitos; adquira e pague imediatamente.
  57. Se ofender alguém, peça perdão; se ofender alguém publicamente, desculpe-se publicamente.
  58. Quando você se der conta que disse algo errado não persista no erro por orgulho; ao contrário, retrate-se imediatamente.
  59. Nunca defenda suas ideias simplesmente porque você foi quem as expressou.
  60. Não guarde objetos inúteis.
  61. Não adorne-se de ideias exóticas.
  62. Não tire suas fotografias junto de pessoas famosas.
  63. Não justifique-se para ninguém e mantenha-se como seu próprio conselheiro.
  64. Nunca defina-se pelo que você tem.
  65. Nunca fala sobre vocês sem considerar que você pode mudar.
  66. Aceite que nada lhe pertence.
  67. Quando alguém perguntar sua opinião sobre alguém ou sobre algo descreva apenas as qualidades.
  68. Quando ficar doente tenha sua doença por um professor, não algo a ser odiado.
  69. Olhe diretamente e não se esconda.
  70. Não esqueça seus mortos, mas dê-lhes um lugar limitado e nunca permitam que eles invadam sua vida.
  71. Onde quer que viva sempre encontre um espaço que você devote ao sagrado.
  72. Quando realizar um serviço torne seu esforço imperceptível.
  73. Se você decidir trabalhar para ajudar os outros faça-o com prazer.
  74. Se  você está hesitante entre fazer ou não fazer algo, arrisque fazer.
  75. Não tente ser tudo com seu cônjuge; aceite que há coisas que você não pode dar à ele/ela, mas que outros podem.
  76. Quando alguém estiver falando com uma audiência interessada não contradiga essa pessoa e roube sua audiência.
  77. Viva com o dinheiro que ganhou.
  78. Nunca se gabe das suas aventuras amorosas.
  79. Não glorifique suas fraquezas.
  80. Nunca visite alguém apenas para passar o tempo.
  81. Obtenha coisas para dividir.
  82. Se você estiver meditando e um demônio aparecer, faça-o meditar também.

Permitindo-se o infinito

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Constructos da mente são belos e complexos, mas podem ocupar todo o campo de percepção.

Para seu azar vocês são muito inteligentes.

Esta frase foi dita por Nagato sensei, um importante professor da Bujinkan¹, durante uma das aulas que acontecem aos sábados eu seu dojo que em outros horários é uma escola de ping-pong. Ela me marcou muito, apesar da simplicidade, e de certo modo refez todo meu mindset de aprendizado. Naquele dia haviam muito alunos experientes, que já ministraram muitos seminários e havia algo que se repetia em quase todos: os movimentos deles pareciam muito mais com o que eles já faziam do que com o que estava sendo mostrado por Nagato sensei. Eles foram lá para aprender com o professor, mas havia muita dificuldade em parar de enxergar apenas seus próprios movimentos no professor, era necessário que este lhes mostrasse o que estava acontecendo.

Temos a ilusão de que nós recebemos informações dos nossos sentidos de maneira objetiva, ou”pura”. Sendo assim, na ausência de quaisquer limitações médicas perceberíamos as coisas tal qual elas são – os olhos enxergariam exatamente o que está diante deles; o nariz perceberia com exatidão os aromas, o ouvido os sons e assim por diante. Pois bem, não funciona assim. O caminho da informação não é direto, pode ser pensado através deste exemplo:

  1. Luz bate no objeto e segue para os olhos.
  2. Olhos transformam esta luz numa imagem que é enviada ao cérebro.
  3. Cérebro processa esta imagem e produz uma interpretação da imagem.

O que nós percebemos é esta interpretação da imagem e esta interpretação recebe interferências de outras coisas que já vimos, do que cérebro já sabe. Voltando à aula de Nagato sensei, os alunos mais experientes tendem a ver o que já sabem no movimento do professor, e repetem isso – não aprendem nada novo de fato. É como se um véu espelhado cobrisse o professor.

Algumas tradições budistas utilizam um modelo bastante simples do pensamento que nos ajuda a entender como a nossa mente sobrepõe nossas percepções. São chamadas 18 ilusões, às quais estamos presos. São elas:

  1. Visão
  2. Audição
  3. Olfato
  4. Tato
  5. Paladar
  6. Capacidade de pensar

Estas 6 ilusões dão origem à outras 6:

  1. Visão -> Imagem
  2. Audição -> Som
  3. Olfato -> Cheiro
  4. Tato -> Textura
  5.  Paladar -> Sabor
  6. Capacidade de pensar -> Pensamento

E estas outras 6 ilusões são processadas pela nossa capacidade de pensar, dando origem à outras 6 interpretações, que também são ilusões:

  1. Visão -> Imagem -> Interpretação da imagem
  2. Audição -> Som -> Interpretação do som
  3. Olfato -> Cheiro -> Interpretação do cheiro
  4. Tato -> Textura -> Interpretação da textura
  5.  Paladar -> Sabor -> Interpretação do sabor
  6. Capacidade de pensar -> Pensamento -> Interpretação do pensamento

Percebidas estas 18 ilusões passa a ser possível removê-las em camadas, mesmo que de forma impermanente, buscando assim uma percepção diferenciada do que nossa mente está habituada a nos proporcionar

Numa obra bastante breve e densa o mestre Shunryu Suzuki escreveu a seguinte frase:

Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito.

A obra chama-se Mente Zen, Mente de Principiante (clique para baixar) e nela ele passa pelos princípios do zazen (meditação zen) e do Shoshin (Mente/Coração de Principiante). No capítulo que começa com esta frase Suzuki sensei apresenta o conceito Shoshin que podemos resumir como: encare tudo como se não soubesse nada sobre, como um principiante ou, na palavras de Hatsumi sensei, como uma criança de 3 anos.

Segundo Suzuki sensei a mente deve permanecer vazia e alerta. Se pensarmos nela como um quarto podemos fazer a pergunta: é possível fazer muitas atividades num quarto cheio de coisas e sem espaço para se mover? E se ele estivesse com menos coisas, se elas estivessem guardadas nos devidos lugares, seria possível mais? Esse é o propósito da mente vazia, não se tornar alguém que não sabe nada, mas alcançar uma postura de pensamento vazio, que sempre percebe o mundo como se fosse a primeira vez, livre de qualquer carga de pensamento pré-concebidos.

Por isso o perito tem poucas opções. Seu caminho terá grandes chances de ser apenas variações dos caminhos que já fez. Já o principiante trilhará um caminho completamente novo, pois nunca esteve lá.

A mente livre e vazia vaza sem ordem conhecida, desdobra-se em camadas sem fim, dentro das quais há mais camadas.
A mente livre e vazia vaza sem ordem conhecida, desdobra-se em camadas sem fim, dentro das quais há mais camadas.

Já li e ouvi bastante a frase “O conhecimento é infinito” e hoje faria um adendo “… se você permitir que ele o seja.” Quando buscamos aprender algo é muito comum tentarmos fazer com que este algo se assemelhe com outro algo que já conhecemos, pois isso facilita o aprendizado. Facilita num sentido bastante egocentrado e limitado: queremos que o tempo dedicado àquele aprendizado frutifique algo o mais rápido possível, queremos fazer valer nosso tempo e identificar o novo conhecimento com o que já sabemos, nos dando a ilusão do “Olha, já sei!”. Quando fazemos isso delimitamos o horizonte do que há para aprender, e o conhecimento deixa de ser infinito.

Existem experiências que chocam essas percepções, mas é preciso nos expormos à elas. Na primeira vez que fui ao Japão em treinamento fui esperando aprender muitas coisas, sim, mas eu acreditava que tinha dimensão do que aprenderia. Era como se eu pensasse que havia trilhado 10km numa estrada de 10.000km, e quando cheguei lá, por duas semanas mantive esta postura egocêntrica que julgava ser capaz de mensurar o caminho e, não por acaso, falhei três vezes no exame de Sakki². Falhar foi uma humilhação, além de um fracasso. Foi horrível perceber os olhares (que julguei) julgadores dos que me viram falhar todas as vezes, mas pior ainda foi falhar diante do meu professor. A terceira vez que falhei foi durante a última aula que ele estaria lá, eu ficaria mais uma semana ainda e pensei “Bem, agora que ele vai embora pelo menos não tenho mais vergonha, então posso focar em um treino melhor, sem este peso.”, mas antes de iniciarmos a cerimônia de encerramento da aula Hatsumi sensei parou e mandou que eu me submetê-se novamente ao exame, e pensei “Ok, é só fechar os olhos, apanhar e voltar pra casa. Não tenho nada mais para provar, já falhei três vezes e claro que não será desta vez.”. Fui até o centro do tatami, sentei na posição seiza (ajoelhado) e aguardei o golpe. Até hoje não sei descrever exatamente o que aconteceu. Foi como se a divisão entre corpo-mente-espírito desaparecesse, e este todo moveu-se quando foi necessário, sem que nenhum estímulo mecânico que teria iniciado o movimento pudesse ser identificado. Confuso ouvi aplausos e lá estava Noguchi sensei (quem aplicou o exame) me dando os parabéns.

Esta experiência me deu a consciência que a estrada que eu julgava ter 10.000km era infinita e qualquer tentativa de mensurá-la era egocêntrica e tola, apenas serviria para limitar o aprendizado. Eu só consegui aprender isso depois que meu ego estava de joelhos. A “humilhação” e o “fracasso” eram apenas reflexos dele.

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A flecha do infinito aponta de volta para o arqueiro.

Aldous Huxley teve uma experiência que lhe mostrou estes limites auto-impostos de uma maneira diferente. Este vídeo do programa 8bit Philosophy conta um pouco desta história:

Psicodélicos são bastante combatidos hoje em dia pelas forças da lei e são poucos os caminhos que temos para as experienciar que não sejam ilegais. Uma possibilidade no Brasil é a ayahuasca, uma substância ingerida por muitos povos nativos que propicia uma experiência MUITO intensa. Existe um documentário excelente sobre a aya, A Molécula do Espírito.

Quando escolhi como título para este post “Permitindo-se o infinito” falava disso: livrar-se das ideias preconcebidas permite experienciar o mundo de maneira ilimitada. Nas palavras de William Blake:

Se as portas da percepção se desvelarem, cada coisa apareceria ao homem como é, infinita.

¹ A Bujinkan é uma fundação que dedica-se à divulgação e ao ensino de nove tradições marciais (artes marciais), e o conjunto delas chamamos Budo Taijutsu. Mais informações aqui.

² Neste teste o examinado assume uma posição ajoelhada (seiza) e recebe um ataque de espada de um mestre, pelas costas – tudo que ele tem que fazer é evitar o ataque. Aqui podemos ver alguns exames que foram filmados.

* As ilustrações são do artista Moebius, aka Jean Giraud, feitas após trabalhar com Alejandro Jodorowisky e passar um tempo com um guru em Fiji.