82 ensinamentos recebidos por Jodorowsky

Este é o Jodô.
Este é o Jodô.
Estes 82 ensinamentos foram publicados na obra The Spiritual Journey of Alejandro Jodorowsky (link para download direto), e foram entregues ao Jodô por Reyna d’Assia, filha de George Gurdjieff, um mestre espiritual. Jodô relacionou-se carnal e espiritualmente com Reyna, que apontou de onde partiam seus problemas: a dor de ter vindo de uma mãe de vagina muda.
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Segue o trecho do livro onde os ensinamentos são apresentados:
[Jodorowsky]: “Reyna, você está me dizendo contos de fadas! Estes objetivos são 100% utopicos ‒ e mesmo que fossem verdadeiros, qual seria o primeiro passo neste caminho?
[Reyna d’Assia]: Quem quer que deseje alcançar o supremo objetivo deve primeiro mudar seus hábitos, conquistar sua preguiça e tornar-se um ser humano moralmente elevado. Para sermos fortes nas grandes coisas precisamos ser também nas pequenas
[Jodorowsky]: Como?
[Reyna d’Assia]: “Fomos educados de maneiras muito ruins. Vivemos num mundo de competição, no qual honestidade é sinônimo de ingenuidade. Devemos primeiro desenvolver bons hábitos. Alguns podem parecer simples, mas são muito difíceis de realizar. Ao acreditar que eles são óbvios falhamos em perceber que eles são a chave para a conciência imortal. Agora eu lhe ofereço o o ditar dos mandamentos que meu abençoado pai me ensinou…
E são eles:
  1. Ancore sua atenção em você. Este consciente em cada momento sobre o que você está pensando, sentindo, percebendo, desejando e fazendo.
  2. Sempre termine o que começou
  3. O que quer que esteja fazendo, faça da melhor maneira possível.
  4. Não se apegue a nada que possa lhe destruir ao longo do tempo.
  5. Desenvolva sua generosidade ‒ mas secretamente.
  6. Trate a todos como se ele ou ela fossem parentes ou pessoas próximas.
  7. Organize o que você desorganizou.
  8. Aprenda a receber e oferecer agradecimentos por cada presente e dom recebidos.
  9. Pare de se definir.
  10. Não minta ou roube, pois você mente para você e rouba de você.
  11. Ajude seus vizinhos, mas não os torne dependentes.
  12. Não encoraje outros a lhe imitarem.
  13. Faça planos de trabalho e os cumpra.
  14. Não ocupe muito espaço.
  15. Não faça movimentos ou sons inúteis.
  16. Se lhe falta fé, finja que tem.
  17. Não se permita impressionar por personalidades fortes.
  18. Não olhe para ninguém ou para nada como se fossem suas posses.
  19. Divida de maneira justa.
  20. Não seduza.
  21. Coma e durma somente o necessário.
  22. Não fale de seus problemas pessoais.
  23. Não expresse julgamento ou criticismo quando você ignora grande parte dos fatores envolvidos.
  24. Não estabeleça amizades inúteis.
  25. Não siga modas.
  26. Não venda seu peixe (ou você mesmo).
  27. Respeite os contrato que assinou.
  28. Seja pontual.
  29. Nunca inveje a sorte ou o sucesso de outros.
  30. Não fale mais do que o necessário.
  31. Não pense nos ganhos que seu trabalho proporcionará.
  32. Não ameace ninguém.
  33. Mantenha suas promessas.
  34. Quando estiver numa discussão, coloque-se no lugar da outra pessoa.
  35. Admita que alguém pode ser superior à você.
  36. Não elimine, transmute.
  37. Conquiste seus medos, pois cada um deles representa um desejo camuflado.
  38. Ajude os outros a se ajudarem.
  39. Conquiste suas aversões e aproxime-se daqueles que lhe inspiram rejeição.
  40. Não reaja ao que os outros dizem de você, sejam elogios ou críticas/culpas (blame).
  41. Transforme eu orgulho em dignidade.
  42. Transforme sua ira em criatividade.
  43. Transforme sua ganância em respeito pelo que é belo.
  44. Transforme sua inveja em admiração pelos valores dos outros.
  45. Transforme seu ódio em caridade.
  46. Não vanglorie-se nem insulte-se.
  47. Trate aquilo que não lhe pertence como se pertencesse.
  48. Não reclame.
  49. Desenvolva sua imaginação.
  50. Nunca dê ordens para ter a satisfação de ser obedecido.
  51. Pague pelos serviços que lhe prestarem.
  52. Não faça pregações das duas ideias ou dos seus trabalhos.
  53. Não tente fazer ninguém sentir por você emoções como dó, admiração, simpatia ou cumplicidade.
  54. Não tente distinguir-se através da aparência.
  55. Nunca contradiga, ao contrário, permaneça em silêncio.
  56. Não acumule débitos; adquira e pague imediatamente.
  57. Se ofender alguém, peça perdão; se ofender alguém publicamente, desculpe-se publicamente.
  58. Quando você se der conta que disse algo errado não persista no erro por orgulho; ao contrário, retrate-se imediatamente.
  59. Nunca defenda suas ideias simplesmente porque você foi quem as expressou.
  60. Não guarde objetos inúteis.
  61. Não adorne-se de ideias exóticas.
  62. Não tire suas fotografias junto de pessoas famosas.
  63. Não justifique-se para ninguém e mantenha-se como seu próprio conselheiro.
  64. Nunca defina-se pelo que você tem.
  65. Nunca fala sobre vocês sem considerar que você pode mudar.
  66. Aceite que nada lhe pertence.
  67. Quando alguém perguntar sua opinião sobre alguém ou sobre algo descreva apenas as qualidades.
  68. Quando ficar doente tenha sua doença por um professor, não algo a ser odiado.
  69. Olhe diretamente e não se esconda.
  70. Não esqueça seus mortos, mas dê-lhes um lugar limitado e nunca permitam que eles invadam sua vida.
  71. Onde quer que viva sempre encontre um espaço que você devote ao sagrado.
  72. Quando realizar um serviço torne seu esforço imperceptível.
  73. Se você decidir trabalhar para ajudar os outros faça-o com prazer.
  74. Se  você está hesitante entre fazer ou não fazer algo, arrisque fazer.
  75. Não tente ser tudo com seu cônjuge; aceite que há coisas que você não pode dar à ele/ela, mas que outros podem.
  76. Quando alguém estiver falando com uma audiência interessada não contradiga essa pessoa e roube sua audiência.
  77. Viva com o dinheiro que ganhou.
  78. Nunca se gabe das suas aventuras amorosas.
  79. Não glorifique suas fraquezas.
  80. Nunca visite alguém apenas para passar o tempo.
  81. Obtenha coisas para dividir.
  82. Se você estiver meditando e um demônio aparecer, faça-o meditar também.
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A identidade do ser autêntico e do ser múltiplo

Auto-retrato de Moebius. Parece autêntico...
Auto-retrato de Moebius. Parece autêntico…

Situarmo-nos num mundo cuja comunicação é cada vez mais intensa e da qual participamos independente de nossa vontade é um desafio. Por comunicação me refiro à:

  • Internet (e-mails, blogs, home pages,e redes sociais etc)
  • Telefonia
  • Serviços de mensagem (Whatsapp, Telegram, Textsecure etc)
  • Cartas
  • Pombo-correio
  • Pixo no muro

E a lista segue e não se restringe à comunicação textual apenas, mas por imagens, por vídeos por audios e outras formas mais.

Bem, como divagava, é muito difícil acharmos *quem* somos ou *o que* somos. Ou mesmo se somos de fato, pois já há quem diga que *Penso, logo existo* já está por fora, mas isso é outro assunto, quero tratar de duas ideias com as quais me deparo muito no cotidiano:

  • Devemos ser autênticos, termos nossas opiniões.
  • Vestimos muitas máscaras e somos múltiplos no diversos ambientes em que convivemos.

O ser autêntico

Esbarrei bastante cedo nesta ideia e a observo mais entre adolescentes. Basicamente trata-se de encontrar algo para se ser, algo original, seguir nossos corações e alcançar nossos sonhos.

É uma visão endossada principalmente pelo cinema e pela literatura mais populares. Quantos heróis e heroínas famosos não triunfaram ao seguir o que acreditavam, independente do que o mundo lhes mostrava?

É bonito e parece sábio. Parece porque essa ideia disseminada numa sociedade individualista pode ser perigosa – um idiota que acredita em si mesmo é o tipo de gente que esfaqueia atrizes porque discordam delas, que lincha pessoas porque acredita que elas são bruxas, entre outras barbaridades. Todas essas pessoas  acreditavam no que faziam.

Para acreditar em alguém é preciso que este alguém tenha credibilidade, mesmo que sejamos nós. Pessoalmente não acredito na minha opinião sobre a construção de pontes, sobre a filosofia de Nietzsche, sobre qual o melhor remédio para tratar meningite, sobre a crise econômica da Grécia… Não sei sobre estes assuntos e alguns texto nas redes sociais e uns vídeos no Youtube não foram suficientes para tornar minhas ideias confiáveis. Em suma: pouco importa minha opinião sobre estes assuntos e seguí-la seria uma tolice.

Ok, podemos pensar em algo mais suave, como um estilo, uma forma de falar, de vestir e de pensar.  Aí é ainda mais fácil da *autenticidade* cair por terra.

  • Nossas gírias vieram de algum lugar, aprendemos elas com alguém ou em algum lugar. Se você criou suas próprias gírias teve que disseminá-las para que os outros lhe entendesse, caso contrário você é algo próximo de esquizofrênico.
  • Nossa forma de vestir veio do que a indústria produziu para nós, do que ela determinou que deveríamos usar. O máximo que podemos fazer é modificar estas vestimentas, fazer combinações diferentes ou, para os mais habilidosos, hackeá-las – cortá-las, costurá-las, tingí-las, desenhar nelas etc. Punks têm o costume de produzir suas próprias vestimentas, mas exceto eles ou outros como eles (poucos) somos no máximo remixes do que nos ofereceram.
  • Nossas ideias também vieram de algum lugar, mesmo aquelas ideias super geniais que tivemos chapados depois de ver um filme super cabeça e conversar com nossos amigos intelectuais, são todas remixes do que a humanidade tem feito desde que desenvolveu capacidade de comunicar-se através de símbolos. Isso não torna as ideias boas ou ruins ruins, apenas não *originais* – isso não existe. De certo modo devemos elas ao mundo, à todos aqueles com quem conversamos e entramos em contato.

Bom, ser autêntico então é assumir publicamente o que você é? Pode ser, mas não necessariamente. Se alguém se interessa por quem você é, se você confia neste alguém e se esta informação sobre você é relevante para a relação de você, ok, cabe “assumir-se” ou, como eu prefiro, deixar que lhe conheçam.

Ficam ainda os casos em que assumir algo é uma questão política, de formar uma solidariedade entre grupos e ser reconhecido e ter o seu direito de existir senão reconhecido, ao menos afirmado. É o caso da luta por formas não-hegemônicas de amor, em outras palavras, luta de movimentos Trans, LGBT etc. Idem para a luta contra o racismo, contra xenofobia e outras boçalidades que ainda assolam a sociedade. Nota: estas lutas não são iguais entre sí, mas acenam para a mesma coisa, o reconhecimento e a conquista do direito de existir sem ser agredido por isso. Eu não me referia à estes casos, pois não são uma questão de *autenticidade*, mas de luta.

Por fim Heidegger tem “um pouco” a dizer sobre autenticidade (legendas em inglês):

O ser de muitas máscaras

Esta ideia já chegou até mim mais tarde e foi apresentada como algo mais maduro. Somos pessoas diferentes em diferentes momentos. Com nossos pais somos uns, com nosso companheiros outros, com nossos professores outros, com os subordinados outros, com os chefes outros e assim por diante. Não dá para agir da mesma maneira pois os códigos compartilhados mudam:

  • Gírias e entonações mudam de grupo para grupo. Não falo para meus pais que vi um filme *tripante* (tripante -> vem de *trip*, viagem em inglês -> algo que promove ideias diferentes do convencional em minha cabeça).
  • Roupas mudam de grupo para grupo. Não vou pelado ao trabalho, mas posso ficar assim perto de alguns amigos, assim como não uso terno para comer uma feijoada com meus amigos, a não ser que eles peçam, como se faz em casamentos. As roupas dizem algo e quero garantir que esse algo seja condizendo com o que quero dizer.
  • Os assuntos mudam. Não converso com minhas chefes sobre a experiência espiritual que tive no fim de semana, assim como não converso de como foi a turma do oitavo B na avaliação com minha mãe.

Entrei em contato com esta ideia nos seguintes lugares: aulas de português (já no colegial), dinâmicas de grupos em ambientes profissionais, posts de blogs como este aqui e num grupo de teatro que (quase) frequentei há muito tempo.

A noção de que vestimos muitas máscaras vai além uma mera constatação, tornou-se uma justificativa para nossos desvios de caráter. Nós brasileiros (e possivelmente outros, mas não os conheço tanto) não temos o hábito de dizer *não*, de assumir o ônus das escolhas e das decisões, e com frequência inventamos desculpas para simplesmente não dizer um *não*. Isso fez com que pequenas práticas mentirosas tornassem-se cotidianas para nós.

Também não se trata de simples *falsidade*, pois isso envolve mentiras e intrigas ativamente produzidas, mas sim de uma forma de agir, um modus operandus.

As identidades que vazam

Assumir que nós somos muitos faz com situações do seguinte tipo passem a ser aceitáveis e até admirados:

Sou um pitbull no trabalho! Abocanho tudo que posso. E sou esperto também, porque se você não está pronto para passar a perna, pode ter certeza que alguém estará. Ah, mas isso é só nesses lugares, pois eu separo o profissional do pessoal…

Truco. Não tem como separar. Passamos nossa vida imersos em trabalho, ele toma quase nossa vida toda, e não em como sair de uma imersão sem ser afetado por ela. Se passamos o dia todo tentando perceber quem vai nos passar a perna e como vamos virar a mesa, esse modus operandus tende a ser aplicado em todo o resto, que passamos menos tempo. Vou achar que meu amigo fez a divisão dos custos da viagem suavemente errado, a favor dele; vou achar que minha companheira quis dizer na verdade outra coisa com “essa roupa não é a sua cara, fica melhor no Jorge”; e depois vou agir conforme estas intrigas que eu criei na minha cabeça, tentando não ser o “trouxa” da relação e aí o problema só vai crescer…

Hermes Trismegisto selava sua consciência para viaja pelos mundos sem ser afetado, mas ele era um mago poderoso. Quem de nós o é?
Hermes Trismegisto selava sua consciência para viajar pelos mundos sem ser afetado, mas ele era um mago sábio e poderoso. Quem de nós o é?

Não existe uma identidade *pura* nossa, algo essencial e hermeticamente selado que possa andar conosco o dia todo, sentir emoções diversas, pensamentos diversos e retornar ao lar exatamente como partiu. Nossas máscaras vazam de uma para a outra: o filho que sou afeta o amigo que sou, que afeta o professor que sou que por sua vez afeta o amante que sou e assim por diante. Nenhuma delas está imune. Cabe a mim cuidar para que as máscaras todas sejam o mais próximo possível do que desejo ser e, por consequência, mas parecidas entre si.

O exemplo de trabalho veio porque é algo muito vivo, mas isso vale para qualquer ambiente nos quais passamos muito tempo – eles nos transformam.

Sobre quem se torna professor

Pouco mais de um mês atrás Paula (companheira) e eu fomos à uma reunião com uma pessoa versada em determinada área de conhecimento que desejava montar um curso online. Achamos que ela queria não apenas o suporte técnico, que seria montar uma instância online (“site” onde fica a “sala de aula virtual”), fóruns, como publicar materiais etc, mas também o suporte educacional sobre transmitir um conhecimento para outra pessoa. Estávamos errados. A pessoa não tinha muitas dúvidas de que ela era capaz de ensinar, nós só entraríamos com o conhecimento tecnológico. Tentamos explicar que não era bem assim, que era necessária uma didática de como ensinar, como dispor o material para estudo, como alcançar os alunos (algo diferente quando se trata de um meio virtual) etc. Claro que isso significaria mais serviço e logo mais custos. Ela refugou num primeiro momento e disse que iria pensar. Até o momento não recebemos nenhum contato.

Saímos de lá com um certo amargo da boca e eu não sabia exatamente o porquê, mas numa conversa posterior com Paula ficou fácil de entender o que incomodava: a crença de que basta conhecer um assunto para ser capaz de ensiná-lo. Claro que ninguém dirá isso com essa palavras, mas me parece que é assim que o magistério é tratado. Quantas vezes não vemos alguém que faz algo um pouco mais diferente ouvir “Porque você não dá aulas?”.

Que fique claro que não quero dizer que o magistério é uma profissão inacessível e nem que precise de um diploma para ser exercida. Sou licenciado em história e posso dizer que o meu diploma não me ensinou (quase) nada sobre dar aulas, exceto talvez pelo que aprendi observando xs professorxs que conseguiram me atingir em suas aulas, mas não eram aulas que tratavam de ensinar a ensinar, mas sim de ensinar a estudar história. Aprendi a dar aulas dando aula, o que foi bem difícil, e continuo aprendendo já que a cada dia há um novo desafio em sala para lidar. E provavelmente será assim para sempre, já que todo conhecimento me parece infinito.

Já vi e ouvi muito, principalmente em cursinho, mas também em algumas escolas “Puxa, estamos sem professorx de matemática, né? Ah, fulanx é engenheirx, chama elx.” O mesmo se repete com médicxs, veterinárixs e agrônomxs para biologia, engenheirxs químicxs para química e por aí vai. Novamente quero deixar claro que sou contra atrelar a profissão à um diploma, inclusive dos melhores professores de biologia que tive um era médico ginecologista e o outro agrônomo e tenho colegas excelentes professores de matemática e física formados em engenharia. O ponto aqui é a ideia de que basta saber algo para ser capaz de ensiná-lo.

Fiquei com essa pergunta quase pessimista: como queremos que a sociedade de fato valorize a educação se a crença que a tarefa de ensinar é trivial é tão recorrente?

É senso comum dizer que falta educação para o país melhorar, que é um absurdo um jogador de futebol ser ídolo e ganhar mais que umx professorx, que o professorx é importante e bla bla bla. Só que são afirmações vazias, como que quem dissesse isso acreditasse que o simples fato de enunciar um cliché gere alguma ação no sentido de melhorar a educação. Então, não, não gera. Só empoça o debate num fosso de senso comum que é incapaz de gerar alguma transformação. Fazer algo, ao meu ver, seria por exemplo:

  • Pais cobrarem das escolas (particulares) saber quanto x professorx ganha por hora-aula e quantas aulas ele dá naquela instituição e exigir condições mínimas, afinal como que os filhos deles vão ter um bom ensino se o profissional não tem quase nenhuma razão para fazer seu trabalho direito.
  • A sociedade aderir de fato à greve de professorxs, ir às manifestações e usar as armas que tem além do voto.
  • Cobrar das mídias que consome uma cobertura mais madura e intensa sobre as condições da educação no país e expor quem de fato tem a ver com isso (e não, não é a presidenta).
  • Não aceitar a educação estar na mão de burocratas e empresários. Procure saber quantas escolas e empresas de educação tem professores ou pedagogos como proprietárixs.
  • Refletir sobre o como aprendeu o que sabe e o papel que professorxs tiveram nisso.
  • Não tratar a escola como um mercado onde você vai e compra coisas como a educação dos seus filhxs e as fotos delxs dançando na festa junina e na festa do fim do ano.
  • Não pensar “Eu to pagando e eu devo receber o que quero”, já que educação não é mercadoria. Isso vale para escolas públicas, já que muitos cidadãos acham que pagar impostos lhes dá o direito de tratar funcionários públicos como quiserem.
  • Ensinar seus filhos a respeitarem o espaço escolar e participar dele para transformá-lo num lugar melhor. Sim, ele pode ser um espaço tenebroso, mas garanto que isso não é só culpa dxs professorxs.

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Outra frase que demonstra bem o lugar que o magistério ocupa na sociedade é “Você só dá aula?” e não me refiro à questão de que dar aula é trabalho, todo mundo sabe disso, mas do comodismo que essa frase comporta: é ok um professor ter que se desdobrar em outras funções para poder dedicar-se a dar aulas. Não, não é ok. Ninguém está disposto à ir num médico que que tem que sair correndo da cirurgia para fazer um bico de segurança no shopping.

Não precisa de lengeda par quem tem mais de 25 anos. Para quem não tem, clique aqui.
Não precisa de lengeda par quem tem mais de 25 anos. Para quem não tem, clique aqui.

Para quem quer ser professor e se sentiu desencorajado, não foi essa minha intenção. Quis chamar a atenção para o lugar que esta ocupação tem nas falas do dia a dia. Existem formas sim de se tornar professor e não creio que elas passem necessariamente pela universidade. Além de conhecer o que se quer ensinar eu sugiro conhecer o trabalho deste senhor aqui, que escreveu sobre o magistério com um coração enorme e a quem eu chamo de “O grande Professor” (é piegas, eu sei).

paulo_freirePara começar sugiro o canal do youtube do professor André Azevedo da Fonseca, onde ele posta semanalmente vídeos analisando a obra do Grande Professor, todos financiados por financiamento coletivo. Aqui o primeiro vídeo:

https://www.youtube.com/channel/UCKKJpBveT8vWVNfLQ-MvZMg

No link abaixo você encontra algumas das obras do Grande Professor para download. Não são grandes e nem difíceis de ler, mas provavelmente requerem (e merecem) mais de uma leitura, dada sua profundidade.

http://bibliotecauergs.blogspot.com.br/2011/05/livros-de-paulo-freire-disponiveis-para.html

 

Allowing Yourself the Infinity

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The constructs of the mind are beautiful and complex, but they can interfere with all your perception fields.

To your misfortune, you are too smart.

This is a quote from Nagato sensei, an important Bujinkan’s¹ sensei, during one of his Saturday classes on his Dojo, which also function as a ping-pong school. The quote left a big impression on me, despite its simplicity and it completely changed my mind set on its own way. On that day there were many experienced students, many of which had ministered seminars and classes on Budo Taijutsu, and there was something in common to almost all of us: our techniques and movements were much closer to what we have already being doing than to what Nagato sensei was presenting us. We were there to learn from the teacher, but there was a great difficult in stop seeing our on technique on the movements presented by teacher, it was necessary that he would intervene to show what the problem was with each technique.

We have the illusion that we receive information from our senses in a “pure” form, in other words, provided that we don’t have any disabilities we perceive things exactly as they are – what the eyes see is exactly what is happening before them, the nose can distinguish exactly each smell, the ears each sound, and so on. Well, that’s not how it is. The flow of information can be better understood with this example:

  1. The light hits an object and the reflection goes to your eyes.
  2. The eyes transform light into image and sends it to the brain.
  3. The brain process the image and produces an interpretation of such image.

Our perception is, indeed, the interpretation of the image and this interpretation is influenced by what we already seem and the brain already knows. Back to Nagato sensei’s class, the most experienced students usually see what they already know in the teachers techniques and the apply that as technique – they didn’t learn anything new, they just repeated what they already knew thinking this is what was shown.

There is a Buddhist tradition (I can’t remember which) that systematized this process in a very simple way to help us understand how our mind superpose our perceptions. They are called the 18 illusions, to which we are subject. They are:

  1. Vision
  2. Hearing
  3. Smell
  4. Touch
  5. Taste
  6. Ability to think

This 6 illusions generate another 6:

  1. Vision -> Image
  2. Hearing -> Sound
  3. Smell -> Odor
  4. Touch -> Texture
  5. Taste -> Flavour
  6. Ability to think -> Thought

And this 6 illusions are processed by our ability to think, which originates another 6 interpretations that are also illusions:

  1. Vision -> Image -> Interpretation of image
  2. Hearing -> Sound -> Interpretation of sound
  3. Smell -> Odor -> Interpretation of odor
  4. Touch -> Texture -> Interpretation of texture
  5. Taste -> Flavour-> Interpretation of flavour
  6. Ability to think -> Thought -> Interpretation of thought

By perceiving these 18 illusions it is possible for us to remove each one in layers, not permanently, but temporarily, seeking a different perception from what our mind is used to give us.

In a very brief and dense work, master Shunryu Suzuki wrote:

In the beginner’s mind there are many possibilities, but in the expert’s mind there are few.

This work is called Zen Mind, Beginner’s mind (click to download) and it covers the principles of zazen (Zen Meditation) and Shoshin (Beginner’s Mind/Heart). In the chapter which starts with this phrase Suzuki sensei presents the concept of Shoshin that we may resume to: face everything as if you don’t know anything, as a beginner, or, as Hatsumi sensei puts it, as a 3 years old child.

According to Suzuki sensei the mind must remain empty and alert. If we think about it as a room, we can ask ourselves: is it possible to perform many activities in a room full of stuff and no space to move around? What if this room had fewer stuff, if they were put away into their own places, would it be possible to do more? This is the proposition behind an empty mind, not to become someone that knows nothing, but to reach a “virgin” mindset, which allows us to perceive the world as if it was the first time, free of any preconceived thought about the new situation.

That’s why the expert’s mind has fewer possibilities, because the path chosen will be, at most, variations of paths already taken; whilst the beginner will trail a whole new path.

A mente livre e vazia vaza sem ordem conhecida, desdobra-se em camadas sem fim, dentro das quais há mais camadas.
The free and empty mind flows without a preconceived order, if folds into layers without end, inside which there are more layers.

I’ve read and heard the quote “knowledge is infinity” a lot of times before, but today I would add to that “… if you allow it to be.” When we seek to learn something it’s very common to base the new knowledge onto something alike we’ve learned before, making the learning process easier. Although it makes it easier in a sense, it’s egocentric and limited: we want to minimize the time we spent to learn something to get results as soon as possible, we want to make our time worth it identifying the new knowledge with some old one giving us the illusion that we’ve learned (“Look, I can do it”). By doing this we limited the horizon of what we could learn, we make knowledge finite.

There are experiences that can chock our perceptions, but we must get exposed to them. On the first time I’ve being to Japan to train Budo Taijutsu my expectation was to learn a lot, but I believed that I could measure the amount of knowledge there was to be gained. My thought was that I had already trailed 10 miles in a road that reached thousands of miles and when I got there I kept my egocentric posture that I could measure the path ahead. Not by chance I’ve failed my Sakki² test three times. Failing was humiliating beyond the failure. It was awful to perceive (what I’ve judged as) the judging looks of those how witnessed me fail all those times, but the worst part was failing before my master. The third time I’ve failed was the last my master would be present in Japan, but I would stay for one week more and I thought “well, now that he is gone at least I have no one to be ashamed of any more, I can train better without that weight”. At my last class in Japan, before the ending rites of the class, Hatsumi sensei stopped everything and asked me to repeat the exam one last time, and I thought to myself: “Ok, I’ll just close my eyes, get hit in the head again and go home. Fuck it, I’ve got nothing to prove anymore, I’ve already failed 3 times and I’ll clearly fail again.”. I walked to the center of the tatami, sat in seiza position (typical Japanese sitting position over the knees) and waited for the sword strike. Up to this date I can’t describe exactly what happened, but it was as if the boundaries between mind, body, and spirit, ceased to exist and this new whole moved as one when it was necessary. no mechanical stimulation that I could identify triggered this movement. Confused I’ve heard applause and there was Noguchi sensei (who applied the test) congratulating me.

This experience gave me conscience that the road I estimated about ten thousands of miles was, in fact, infinity and that any attempt to measure it was egocentric and foolish, it would just serve to limit my learning. I could only learn that once my ego was on its knees, the “humiliation” and “failure” were just reflexes of it.

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The infinity arrow points back to the bowman.

Aldous Huxley had an experience that showed him these self-imposed limits in a different way. This 8bit Philosophy video tells a little about this story:

Psychedelic are fiercely fight by agents of law today and there are very few ways to experience them that are not illegal. One very simple possibility in Brazil is ayahuasca, a substance ingested by many native populations that gives a VERY intense experience. There is an excellent documentary about this root, The Molecule of the Spirit. When I’ve gave this post the title of “Allowing Yourself the Infinity” I was thinking about this: get rid of preconceived ideas allows you to experience the world in an unlimited way.  In the words of William Blake:

If the doors of perception were cleansed every thing would appear to man as it is, Infinite.

¹ Bujinkan is a foundation dedicated to spread and teach nine martial traditions, the collective of these traditions is called Budo Taijutsu. More information here.

² In this test the student assumes a typical Japanese sitting position (seiza) and a master position himself behind the student to deliver a sword blow to the head – the only thing the student must to is avoid the attack. Here you may find some exams that were caught on camera.

* The illustrative images were created by the artist Moebius, aka Jean Giraud. they were created after his work with Alejandro Jodorowisky, and spending some time with a guru in Fiji..

Permitindo-se o infinito

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Constructos da mente são belos e complexos, mas podem ocupar todo o campo de percepção.

Para seu azar vocês são muito inteligentes.

Esta frase foi dita por Nagato sensei, um importante professor da Bujinkan¹, durante uma das aulas que acontecem aos sábados eu seu dojo que em outros horários é uma escola de ping-pong. Ela me marcou muito, apesar da simplicidade, e de certo modo refez todo meu mindset de aprendizado. Naquele dia haviam muito alunos experientes, que já ministraram muitos seminários e havia algo que se repetia em quase todos: os movimentos deles pareciam muito mais com o que eles já faziam do que com o que estava sendo mostrado por Nagato sensei. Eles foram lá para aprender com o professor, mas havia muita dificuldade em parar de enxergar apenas seus próprios movimentos no professor, era necessário que este lhes mostrasse o que estava acontecendo.

Temos a ilusão de que nós recebemos informações dos nossos sentidos de maneira objetiva, ou”pura”. Sendo assim, na ausência de quaisquer limitações médicas perceberíamos as coisas tal qual elas são – os olhos enxergariam exatamente o que está diante deles; o nariz perceberia com exatidão os aromas, o ouvido os sons e assim por diante. Pois bem, não funciona assim. O caminho da informação não é direto, pode ser pensado através deste exemplo:

  1. Luz bate no objeto e segue para os olhos.
  2. Olhos transformam esta luz numa imagem que é enviada ao cérebro.
  3. Cérebro processa esta imagem e produz uma interpretação da imagem.

O que nós percebemos é esta interpretação da imagem e esta interpretação recebe interferências de outras coisas que já vimos, do que cérebro já sabe. Voltando à aula de Nagato sensei, os alunos mais experientes tendem a ver o que já sabem no movimento do professor, e repetem isso – não aprendem nada novo de fato. É como se um véu espelhado cobrisse o professor.

Algumas tradições budistas utilizam um modelo bastante simples do pensamento que nos ajuda a entender como a nossa mente sobrepõe nossas percepções. São chamadas 18 ilusões, às quais estamos presos. São elas:

  1. Visão
  2. Audição
  3. Olfato
  4. Tato
  5. Paladar
  6. Capacidade de pensar

Estas 6 ilusões dão origem à outras 6:

  1. Visão -> Imagem
  2. Audição -> Som
  3. Olfato -> Cheiro
  4. Tato -> Textura
  5.  Paladar -> Sabor
  6. Capacidade de pensar -> Pensamento

E estas outras 6 ilusões são processadas pela nossa capacidade de pensar, dando origem à outras 6 interpretações, que também são ilusões:

  1. Visão -> Imagem -> Interpretação da imagem
  2. Audição -> Som -> Interpretação do som
  3. Olfato -> Cheiro -> Interpretação do cheiro
  4. Tato -> Textura -> Interpretação da textura
  5.  Paladar -> Sabor -> Interpretação do sabor
  6. Capacidade de pensar -> Pensamento -> Interpretação do pensamento

Percebidas estas 18 ilusões passa a ser possível removê-las em camadas, mesmo que de forma impermanente, buscando assim uma percepção diferenciada do que nossa mente está habituada a nos proporcionar

Numa obra bastante breve e densa o mestre Shunryu Suzuki escreveu a seguinte frase:

Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito.

A obra chama-se Mente Zen, Mente de Principiante (clique para baixar) e nela ele passa pelos princípios do zazen (meditação zen) e do Shoshin (Mente/Coração de Principiante). No capítulo que começa com esta frase Suzuki sensei apresenta o conceito Shoshin que podemos resumir como: encare tudo como se não soubesse nada sobre, como um principiante ou, na palavras de Hatsumi sensei, como uma criança de 3 anos.

Segundo Suzuki sensei a mente deve permanecer vazia e alerta. Se pensarmos nela como um quarto podemos fazer a pergunta: é possível fazer muitas atividades num quarto cheio de coisas e sem espaço para se mover? E se ele estivesse com menos coisas, se elas estivessem guardadas nos devidos lugares, seria possível mais? Esse é o propósito da mente vazia, não se tornar alguém que não sabe nada, mas alcançar uma postura de pensamento vazio, que sempre percebe o mundo como se fosse a primeira vez, livre de qualquer carga de pensamento pré-concebidos.

Por isso o perito tem poucas opções. Seu caminho terá grandes chances de ser apenas variações dos caminhos que já fez. Já o principiante trilhará um caminho completamente novo, pois nunca esteve lá.

A mente livre e vazia vaza sem ordem conhecida, desdobra-se em camadas sem fim, dentro das quais há mais camadas.
A mente livre e vazia vaza sem ordem conhecida, desdobra-se em camadas sem fim, dentro das quais há mais camadas.

Já li e ouvi bastante a frase “O conhecimento é infinito” e hoje faria um adendo “… se você permitir que ele o seja.” Quando buscamos aprender algo é muito comum tentarmos fazer com que este algo se assemelhe com outro algo que já conhecemos, pois isso facilita o aprendizado. Facilita num sentido bastante egocentrado e limitado: queremos que o tempo dedicado àquele aprendizado frutifique algo o mais rápido possível, queremos fazer valer nosso tempo e identificar o novo conhecimento com o que já sabemos, nos dando a ilusão do “Olha, já sei!”. Quando fazemos isso delimitamos o horizonte do que há para aprender, e o conhecimento deixa de ser infinito.

Existem experiências que chocam essas percepções, mas é preciso nos expormos à elas. Na primeira vez que fui ao Japão em treinamento fui esperando aprender muitas coisas, sim, mas eu acreditava que tinha dimensão do que aprenderia. Era como se eu pensasse que havia trilhado 10km numa estrada de 10.000km, e quando cheguei lá, por duas semanas mantive esta postura egocêntrica que julgava ser capaz de mensurar o caminho e, não por acaso, falhei três vezes no exame de Sakki². Falhar foi uma humilhação, além de um fracasso. Foi horrível perceber os olhares (que julguei) julgadores dos que me viram falhar todas as vezes, mas pior ainda foi falhar diante do meu professor. A terceira vez que falhei foi durante a última aula que ele estaria lá, eu ficaria mais uma semana ainda e pensei “Bem, agora que ele vai embora pelo menos não tenho mais vergonha, então posso focar em um treino melhor, sem este peso.”, mas antes de iniciarmos a cerimônia de encerramento da aula Hatsumi sensei parou e mandou que eu me submetê-se novamente ao exame, e pensei “Ok, é só fechar os olhos, apanhar e voltar pra casa. Não tenho nada mais para provar, já falhei três vezes e claro que não será desta vez.”. Fui até o centro do tatami, sentei na posição seiza (ajoelhado) e aguardei o golpe. Até hoje não sei descrever exatamente o que aconteceu. Foi como se a divisão entre corpo-mente-espírito desaparecesse, e este todo moveu-se quando foi necessário, sem que nenhum estímulo mecânico que teria iniciado o movimento pudesse ser identificado. Confuso ouvi aplausos e lá estava Noguchi sensei (quem aplicou o exame) me dando os parabéns.

Esta experiência me deu a consciência que a estrada que eu julgava ter 10.000km era infinita e qualquer tentativa de mensurá-la era egocêntrica e tola, apenas serviria para limitar o aprendizado. Eu só consegui aprender isso depois que meu ego estava de joelhos. A “humilhação” e o “fracasso” eram apenas reflexos dele.

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A flecha do infinito aponta de volta para o arqueiro.

Aldous Huxley teve uma experiência que lhe mostrou estes limites auto-impostos de uma maneira diferente. Este vídeo do programa 8bit Philosophy conta um pouco desta história:

Psicodélicos são bastante combatidos hoje em dia pelas forças da lei e são poucos os caminhos que temos para as experienciar que não sejam ilegais. Uma possibilidade no Brasil é a ayahuasca, uma substância ingerida por muitos povos nativos que propicia uma experiência MUITO intensa. Existe um documentário excelente sobre a aya, A Molécula do Espírito.

Quando escolhi como título para este post “Permitindo-se o infinito” falava disso: livrar-se das ideias preconcebidas permite experienciar o mundo de maneira ilimitada. Nas palavras de William Blake:

Se as portas da percepção se desvelarem, cada coisa apareceria ao homem como é, infinita.

¹ A Bujinkan é uma fundação que dedica-se à divulgação e ao ensino de nove tradições marciais (artes marciais), e o conjunto delas chamamos Budo Taijutsu. Mais informações aqui.

² Neste teste o examinado assume uma posição ajoelhada (seiza) e recebe um ataque de espada de um mestre, pelas costas – tudo que ele tem que fazer é evitar o ataque. Aqui podemos ver alguns exames que foram filmados.

* As ilustrações são do artista Moebius, aka Jean Giraud, feitas após trabalhar com Alejandro Jodorowisky e passar um tempo com um guru em Fiji.

Pena de morte – a confusão entre justiça e vingança

Esta semana morreu um cidadão na Indonésia, gerando comoção e reacendendo o debate da pena de morte. Não creio ser possível entrar num debate universal sobre se a pena de morte é certa ou é errada pois sociedades diferentes tem sistemas de pensamentos e necessidades diferentes, os quais este pobre escritor não tem sequer a pretensão de compreender – está além do alcance. Mas é possível pensarmos o espaço que a pena de morte ocupa na sociedade atual. Para isso gostaria de enumerar alguns pontos:

O preço de se dizer algo

Um amigo me ensinou certa vez que existe sempre um preço para se dizer algo. Por exemplo: se quero falar algo sobre João para Rita eu preciso me expor para isso, preciso me aproximar da Rita e proferir as palavras maldizentes. Em qualquer rumo que a situação tomar estarei lá, como sujeito que falou mal de João para Rita e ela poderá me cobrar isso um dia. Ou me agradecer.

Isso vale para outras coisas, por exemplo expressar opiniões. Estou numa sala de aula e resolvo defender a fala do Robert Downey Jr., alegando que ela não é racista, terei que lidar com a possibilidade de cumplicidade com um possível racismo e isso terá papel importante na decisão se irei ou não abrir minha boca.

Agora na internet muitas vezes esse custo não é notado e expressamos qualquer coisa que venha à cabeça, ignorando o preço, que por um lado é menos, pois muitas vezes são para pessoas desconhecidas, e por outro é alto, porque está registrado por escrito, prints  e tudo mais.

Desejo de vingança

Não é nada de absurdo e talvez seja importante para todos começarmos a aceitar nosso lados mais obscuros: é uma satisfação ver quem nos prejudicou se dando mal. O Zangief Kid, por exemplo, personificou o desejo de vingança de muitas pessoas que sofreram bully, e isso o levou para as paradas de sucesso do Youtube por semanas. É satisfatório, por mais que as religiões, filosofias e valores morais digam de maneira diferentes que a vingança não é positiva, não dá para negar a satisfação que ela traz.

Isso não é uma apologia à vingança, mas sim uma proposta de como lidar com essa pulsão. Aceitar essa satisfação é admitir um certo sentimento sádico, o que pode nos levar a reconhecer que não somos exatamente o que pensamos que somos, algo desconfortável, mas essencial se queremos superar essa condição brutal na qual nossa sociedade chafurda. Um passo para caminharmos no  sentido do que o profeta Gentileza dizia:

Gentileza gera gentileza.

A pena de morte

Os clamores por pena de morte são formas de vingança. Ao ver um traficante de drogas ser executado na Indonésia a pessoa pode se sentir vingada da vez que um usuário de crack lhe assaltou na rua. Se tivesse que supor como é o pensamento eu faria um esboço:

O sujeito que me assaltou era viciado. -> Ele era viciado porque alguém vendeu drogas para ele. -> Quem vendeu drogas para ele é o responsável do meu assalto. -> Maldito, quero que ele morra. -> Morreu alguém parecido, ufa.

No entanto é apenas a satisfação de um sadismo e não resolve o problema. O criminoso não comete crime esperando ser pego, ainda que o peso da pena o faça pensar com mais cuidado, ele ainda parte da ideia de que não será pego. Alguns estudiosos apontam que lugares que têm a pena de morte NÃO possuem menor criminalidade.

Então de que adianta a pena de morte? Só para eliminar alguém, o que impede ele de cometer outro crime. E satisfazer um desejo de vingança. Não educa ninguém, não melhora a sociedade, só expõe um exemplo, com o qual pode tomar muitos cursos de ação, como não cometer o crime ou então cometê-lo com mais cuidado. Faço parte do segundo tipo de pessoa.

Assumindo o desejo

Não digo aqui que matar alguém é errado em qualquer situação, mas não assumir o ônus da sua ação e se esconder atrás de uma constituição para cometer um assassinato é covarde. Você não precisa do estado para matar alguém. Vá lá, você mesmo. Sacie seu desejo. E eu espero da sociedade que ela cumpra seu papel, deter você e aplicar as sansões que cabem a assassinos.

2015, um novo ano para o RPG no Brasil

Aventureiros prontos para mais um ano. Créditos: Wikimedia.
Aventureiros prontos para mais um ano. Créditos: Wikimedia.

O surgimento da indústria do RPG tem em 1974 o seu marco inicial, com a publicação do primeiro livro de D&D (Dungeons and Dragons). Ela cresceu durante as décadas que seguiram, passou por muitas transformações, até que, no começo do século XXI, sofreu um golpe duro da indústria do vídeo game. Esse último mercado não só reduziu as vendas dos RPGs de mesa (tabletop RPG, em inglês) como levou os grandes nomes do mercado a reformular seus produtos a fim de competir com os jogos eletrônicos – o que foi um grande fracasso, não atraiu o público jovem que continuou a preferir os computadores e afastou o público antigo que buscou abrigo em publicações alternativas, sendo que muitas das quais prosperaram enquanto outras desapareceram.

Isso também foi refletido no mercado brasileiro. A Devir, outrora grande monopolista dos RPGs de mesa no Brasil, deslocou seu foco para os quadrinhos e outras editoras surgiram, tímidas a princípio, como a Jambô (que permaneceu) e a Comic Store (que encerrou atividades em 2005). O RPG no Brasil parecia fadado não ao fim, mas a tornar-se um hobby underground, sustentando-se principalmente nas comunidades voltadas para os antigos títulos como a Nação Garou e  Rogue Council Fanslators 2.0, que traduziram materiais que de outra forma nunca chegariam à língua portuguesa. Porém isso mudou com o crowdfunding.

Uma nova era para o RPG de mesa

numenera

Monte Cook, um velho conhecido dos jogadores mais antigos de RPG, propôs no Kickstarter um cenário inovador, com modestas perspectivas de custo, US$20.000, chamado Numenera, e não só atingiu em três dias a marca inicial, como terminou com US$517.255, ultrapassando todas as metas expandidas e terminando com um produto bastante diverso do que foi inicialmente planejado – de um livro preto e branco de 150 páginas, capa mole, passou para 416 páginas coloridas de alta qualidade e capa dura. Bons ventos acenaram ao RPG, mas os mais pessimistas diziam que isso se deu muito baseado na fama do autor.

Um ano depois, tivemos a campanha do Fate Core para a elaboração da quarta edição de um sistema livre de RPG baseado em Fudge, um sistema caseiro criado no começo dos anos 2000 e que não teve sua popularidade baseada em grandes nomes do mercado, mas na comunidade de fãs que acreditava não só naquela abordagem orientada à narrativa como também na liberdade da licença que permitia qualquer um produzir materiais baseado naquele sistema.

Powered-by-Fate-Final-Light-BG

 

A campanha não apenas foi um sucesso, superando a meta inicial em US$430.365, como abriu portas para outras campanhas de designers de jogos independentes, como Nova Praxis, Jadepunk, Iron Edda e muitos outros. Diferentemente do Numenera e sua licença limitada, Fate Core permitia que os escritores produzissem coisas novas baseadas nele sem cobrar, ou seja, abria espaço para o surgimento de um saudável ambiente para o RPG, livre de Copyrights, onde apenas a imaginação seria o limite.

Conquistas do RPG brasileiro

Há muito tempo venho acompanhando apenas o cenário internacional de RPG e qual não foi minha alegria ao perceber que essa nova onda chegava às nossas terras: a Editora New Order em 2014 financiou no Catarse a tradução de dois jogos para o mercado brasileiro (Yggdrasill e Numenera) e a Solar – Jogos e Entretenimento nos trouxe o Fate Básico. As três campanhas foram financiadas com algumas metas estendidas alcançadas e a Solar colocou entre as suas cinco cenários novos e uma aventura, todos produzidos por autores brasileiros, além de outros dois livros já previstos anteriormente, o Mundos Solares vol. 1 e 2, também por escritores nacionais.

São conquistas dignas de nota que podem indicar um novo tempo para o mercado nacional de RPG, além de fazer refletir quanto às novas estratégias para as campanhas. A campanha de Numenera contou com o nome de Monte Cook, suas premiações internacionais e uma equipe bastante engajada nas comunidades de jogadores, que apresentavam com frequência as novidades e buscavam opiniões. Já na campanha do Fate, pude observar um engajamento bastante similar por parte da Solar, porém o seu ponto alto foram os vídeos feitos: o Conexão Fate, onde foi ensinado como criar seus personagens (primeiro passo num jogo de RPG) e o Desafiados pelo Destino, 4 vídeos onde os escritores brasileiros cujos cenários faziam parte das metas estendidas apresentavam seu trabalho e pediam apoio.

Além das campanhas em si, vale notar a importância que as recompensas oferecidas tiveram, as diferenças entre os diferentes níveis de apoio foram muito claros e cada apoiador conseguia ter noção do tamanho de sua contribuição, além de ter opções que o tornaria parte ainda mais viva daquele projeto, como a recompensa na qual o apoiador teria um personagem idealizado por ele desenhado por um artista da Solar e inserido em algum dos materiais publicados – ele passa a fazer parte do que ajudou a financiar.

Palavras de quem fez

Representantes da Editora New Order e da Solar – Jogos e Entretenimento gentilmente responderam perguntas que lhe enviei por email. As perguntas e respostas seguem na íntegra no fim da postagem, mas gostaria de destacar alguns pontos comentados:

Os três financiamentos simultâneos e o mercado nacional de RPG:

O cumprimento das metas com folga foi em parte uma surpresa e todos, apoiadores e criadores da campanha, tiveram um friozinho na barriga. Nunca houve no Brasil três campanhas ao mesmo tempo deste porte e o mercado era um pouco restrito em relação a outros, como jogos eletrônicos, card games e jogos de tabuleiro. O sucesso demonstra que o público brasileiro nunca abandonou seu hobby, mas talvez estivesse um tanto abandonado, mas está pronto para apoiar novos produtos de qualidade.

O financiamento coletivo pode ser uma porta de entrada para empresas

Ambas, New Order e Solar, foram criadas tendo o financiamento coletivo em mente e com sucesso! Esta forma de trabalhar vai muito além de uma pré-venda de produtos, mas promove engajamento dos consumidores, que não só tem voz mais ativa no que é produzido como produzem eles mesmos as próprias demandas e por vezes o material de consumo. A recompensa oferecida pela Solar para os apoiadores de R$350 foi uma assessoria na produção de um material, livro ou jogo.

Boas práticas aprendidas nestas campanhas

Ambas campanhas contaram com o engajamento de um público que talvez não exista em outros nichos e apostar nisso acena como uma boa estratégia. Buscar não apenas informar, mas buscar opiniões e até trazer outras vozes para a campanha, como os autores internacionais e os brasileiros que estão trabalhando com materiais próprios, também provou-se bastante positivo. Vale notar também a importância de parcerias estabelecidas com sites de RPG, participação em eventos e o planejamento estratégico de marketing, este último muitas vezes subestimado por criadores de projetos.

Desafios para o financiamento coletivo do RPG no Brasil

Unir as comunidades de adeptos do hobby e criar novos talvez seja central. Não se trata de uma prática cuja entrada é tão simples, requer em geral muita vontade, dado que a carga de leitura inicial é maior do que a maioria dos hobbies, ou alguém para lhe introduzir. Nas comunidades de jogos tenho visto Mestres (como chamamos o jogador que promove parte substancial de um jogo de RPG) oferecendo jogos públicos, alguns presenciais e outros online, dando preferência para quem nunca jogou, o que faz pensar em bons ventos soprando a favor deste jogo.

A busca de novas formas de impressão e distribuição dos materiais também mostra-se  como um desafio. Ainda é muito custoso publicar materiais no Brasil, não apenas por impostos elevados – editoras contam com alguns benefícios fiscais, mas talvez não o suficiente -, mas também por um público de poder aquisitivo reduzido em relação à mercados como o norte americano, o que gera uma relação nem sempre saudável com os produtos e sua reprodução. Ainda é pouco divulgada no país a modalidade “Pague o quanto quiser” onde o comprador faz exatamente isso e pode não pagar nada, o que infelizmente muitas vezes acontece, mas não creio que seria maduro atribuir apenas à educação do consumidor, mas também à própria indústria cultural da qual sofremos. Para se aprofundar no tema vale a pena dar uma olhada no que tem sido chamado de Custo Brasil, mas com reservas tendo em vista que o termo foi cunhado por administradores e economistas, os quais algumas vezes carecem de uma abordagem mais social da cultura, ainda que tenham visões claras de suas áreas de atuação.

Segue no fim da postagem as perguntas e respostas na íntegra.

Bons ventos para 2015

As duas empresas consultadas anunciam que realizarão novas campanhas em 2015, uma delas já declarada, The Strange de Bruce Cordell, um cenário bastante singular que utiliza do sistema cypher, o mesmo utilizado em Numenera.

2015 começa com os jogadores de RPG satisfeitos com o sucesso das campanhas e os novos tempos que parecem estar chegando. Rolemos o dados em novas e altas apostas neste ano!

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Reflexões sobre um Nomadismo Foda-se

Trame e conspire, não pragueje nem gema – Hakim Bey

Em 2013 criei o blog Mandinga Urbana como espaço de apoio estratégico para as manifestações que começaram a tomar as ruas em nossas terras tupiniquins. A ideia veio de algumas críticas que tenho às formas que observo de manifestar-se politicamente: o uso do combate direto e sempre fazê-lo dentro das regras do governo ao qual se opõe. Isso não parece funcionar e sobre isso é esta postagem.

Primeiro, não acredito que hierarquia ou estado sejam necessários para se organizar a sociedade. Em geral pedem para que eu justifique isso, ao que posso responder com um “Justifique você porque precisamos de um governo sobre nós” e as respostas que tenho recebido orbitam em torno dos seguintes pontos:

  1. É necessário um governo para impedir as pessoas de cometerem crimes, senão todos mundo sairá por aí roubando o próximo, estuprando ou matando.
  2. É necessário um governo para organizar a produção, voltada para atender necessidades básicas como moradia, alimentação, saúde, transporte e lazer.

A primeira afirmação é mais simples de responder: assumimos então que o estado do homem sem governo é de ladrão, estuprador e assassino? Isso se aplica à quem afirma isso? Nunca vi ninguém se assumir assim, são sempre “os outros”.

Quanto à segunda posso afirmar que não, não conheço uma forma de produção plenamente capaz de atender nossas necessidades, porém afirmo que a atual não é capaz de fazê-lo, não atendemos as necessidades básicas listadas acima:

  • Alimentação: produzimos alimentos seguindo necessidades de mercado e não de produção, ou seja, atendemos a demanda de gerar riqueza para poucos indivíduos, porém não alimentamos os que passam fome.
    • Em 2012 o Huffington Post publicou uma reportagem que, com base num estudo, afirmava que já produzíamos alimento o suficiente para 10 bilhões de pessoas, no entando ainda temos fome pelo mundo.
    • Nossa necessidade de alimentação é porcamente atendida, devido à demandas de mercado. O documentário Fed Up aborda muito bem o tema e pode ser baixado em torrent.
  • Moradia: por “razões de mercado” temos casas desocupadas enquanto temos pessoas desabrigadas, isso sem falar na quantidade de latifúndios para atender necessidades de poucos particulares.
  • Saúde: temos médicos reclamando da mixaria que ganham para atender pelo SUS (que é sim uma mixaria),  o que horroriza e é motivo para pedir até o empeachment da presidenta. Vale lembrar que essa “mixaria dos médicos” é um salário razoável de professor. Não está bom pra ninguém, parece.
  • Transporte: tarifas sobre a todo momento, algumas vezes justificada pelo preço do petróleo, outras por impostos, outras por… Sempre por alguma razão. Deslocar-se é um luxo, é caro e não é acessível, seja dentro da mesma cidade (a periferia vir para os centros) ou em territórios maiores – o morador do Leblon encontra seu vizinho em Paris com uma exclamação de “Que mundo pequeno”, mas não encontra a empregada ou o porteiro do prédio. O mundo não é pequeno, jovem, a renda é mal distribuída.
  • Lazer: o que não é caro é reprimido, por exemplo os bailes funks e a ação assassina das forças policiais nas periferias.

Autores de fato já escreveram longas obras demonstrando que, ao contrário da tola crença popular, o capitalismo não “deu certo”. Ele não atende nada e mantê-lo porque não temos nada melhor é uma falácia. Isso tudo era apenas para contextualizar a proposta no Nomadismo Foda-se.

Henry Thoreau escreveu inspirado numa noite na cadeia a obra Desobediência Civil, que foi lida, exaltada e criticada por muitos. Ó ela abaixo para download:

henry-david-thoreau-tinkO ensaio foi recomendado por Leo Tolstói ao jovem que seria conhecido no futuro como Mahatma Gandi. Vale a pena ler.

O que chamo de Nomadismo Foda-se vem inspirado nesta obra e nas estratégias de combate em manifestações: porque lutamos dentro de um sistema falido ao qual não precisamos pertencer? É um jogo viciado que não temos como vencer.

Pensando no sistema político brasileiro: vamos esperar que a bancada ruralista não trave a reforma agrária, especialmente com uma ministra indicada pela presidenta que afirma que “Não há latifúndios no Brasil.”? Ou ainda que a bancada evangélica nos permita alcançar igualdade e plenitude dos direitos humanos, quando se apoia em valores machistas, homofóbicos e de pleno desrespeito ao que não condiz com sua ideologia? Ou que um país onde corporações de cigarro e bebida financiam campanhas políticas vá legalizar substâncias diversas para uso recreativo sem que todos os que já tem poder já tenham o futuro mercado pronto?

Claro que não. A política não é um jogo para vencermos. Os governos não existem para atender o bem estar do povo, mas sim assegurar a economia. Que importa que o mercado tenha medo da Dilma? Foda-se. Tenhamos medo da fome, da pobreza, da violência. Lutar em defesa disso é aceitar a própria condição de verme, que rasteja pedindo para um ente superior – estado ou empresa – condições de vida que sequer atendem o mínimo da dignidade humana.

Não precisamos seguir leis, ou pelo menos parte delas. Não precisamos começar enfiando o pé na jaca, precisamos de mandinga. Não combatamos o capitalismo nem o governo, sejamos nômades que buscam viver o máximo possível à margem deles.

Está descontente com os impostos? Sonegue-os, as empresas já fazem isso a todo momento, mas não seja pego. Está descontente porque o governo não quer legalizar a maconha? Plante em casa, só para seu uso e não conte para ninguém. Está descontente porque o Netflix te fodeu por usar proxy? Baixe pirata.

Não vamos lutar. Vamos embora.

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“Cultura” Nerd/Geek e Comic Con Experience

No fim da década de 1990 chamavam-me de nerd e isso era um xingamento. Eu era tímido, gostava de ler quadrinhos e livros, jogava video game e RPG e sabia mexer em computadores, uma habilidade que apesar de não ser grande coisa na época, não era tão trivial e dizia algo sobre você. No começo dos anos 2000, conheci pessoas que compartilhavam meus gostos e logo nos identificamos. Gravávamos CDs com scans de quadrinhos, livros, emuladores e roms e filmes e séries, que baixávamos com algum custo naquele tempo em que as bandas não eram tão largas. Compartilhávamos uma “cultura” e não tardou até encontrarmos na internet o movimento Nerd Pride, um “movimento” que já começava há algum tempo, mas só chegou até aqui naquela época. Achamos legal, afinal não estávamos mais tão sozinhos.

Não vou contar toda a história, mas, por fim, isso e mais outras coisas mudaram de forma e viraram a “Cultura Nerd” ou “Cultura Geek” que temos hoje. Já não é mais mau visto na maior parte dos lugares, coisas “nerds” são vistas como inteligentes ou, na pior das hipóteses, divertidas. Star Wars foi revivido – de maneira lamentável, na minha humilde opinião – nos filmes e depois – agora sim com qualidade – nas animações, alcançou um grande público e agora está nas mãos da Disney, o que me faz pensar que alcançará patamares ainda mais altos de popularidade. Os filmes do universo Marvel quebram recordes em cima de recordes de bilheterias. Até Star Trek, nicho nerd por excelência, semi-fechado com fãs extremamente fiéis, caiu nas graças do povão na retomada que os dois fimes mais novos trouxeram. Gostei muito desta popularização, o produto da reação foi muito bom, mas os resíduos me causam uma bad trip.

Nos tempos em que acompanhava o Judão (site de cultura nerd/geek, sei lá), tive, junto do Tonho, meu digno amigo, uma discussão sobre pirataria que virou até tópico no podcast que eles faziam semanalmente. Em resumo, sou a favor da pirataria, compartilhamento da cultura numa sociedade em que o acesso a ela é restrito à maior parte da sociedade e a Marvel não fica menos rica porque eu baixei o Guardiões da Galáxia e assisti em casa. E se ficar, não me importo, acho que já passamos do limite há muito do quanto o acúmulo de capital é razoável. Não me lembro qual era a coisa pirateada na época, mas era quase um consenso entre os comentadores do site e dos próprios proprietários que a pirataria – ou violação de Copyrights, num termo menos elegante – era um pecado, que prejudicava a produção de futuras obras – nota-se com o Game of Thrones – e que eu deveria me envergonhar por prejudicar dessa maneira toda a comunidade nerd/geek. Nem ligo. =P

Porém me entristeceu um bocado perceber que o grupo do qual eu talvez fizesse parte – eu era um jovem mancebo buscando pertencer a algum lugar – era um grupo elitista. Não conheço nenhuma pesquisa sobre isso, mas tenho a impressão que grande parte dos nerds/geeks tenha uma renda razoável, não rica, mas em grande parte suficiente para cumprir seus desejos e, em alguns caso, até ostentá-los. Não acho que todos sejam ricos, mas grande parte endossa essa prática do capitalismo de fetichizar produtos (edições limitadas, especiais com brilho, exclusivas de um evento etc) e de tornar-se alguém por possuir algo, seja um produto material, seja o acesso à algo, como assistir a um filme no cinema. Não precisam ser ricos para isso, podem fazê-lo da mesma forma tola dos pobres e não-tão-pobres-mas-não-ricos que endossam o capitalismo neoliberal.

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Esta Comic Con Experience, segundo evento que utiliza o nome no Brasil (o primeiro acho que foi a Comic Con Brasil, um fiasco segundo relatos), serviu para eu bater o martelo nesta questão: a dita cultura nerd/geek tornou-se (ou talvez sempre tenha sido) um mero nicho de mercado, criado por grupos interessados no acúmulo de riqueza, além de uma forma de valorizar um determinado setor da sociedade que outrora excluído, hoje revelou-se grandes geradores capital (não produtores, dada a fulgacidade de seus bens). Steve Jobs, o “gênio”por trás da Apple, uma das marcas mais valiosas do mundo; Mark Zuckerberg, “criador” do Facebook; Bill Gates, “criador” filântropo (isso procede) da Microsoft; todos poderiam ser (e foram) chamados de nerds/geeks, no entanto hoje ocupam um lugar de destaque, são exemplos de como um ser humano por ficar rico no capitalismo, é só querer, são selfmade men.

Enfim, não é exatamente uma análise profunda, mas foi uma sensação que quis deixar registrada aqui. Obviamente aberto para debate. =)

No mais, a Comic Con Experience foi bastante divertida, vimos belos cosplays (alguns stormtroopers mais convincentes do que os dos filmes) e objeto cenográficos incríveis, conhecemos pessoas amáveis (como a mocinha que compartilhou conosco a foto que tirou do Jason Mamoa) e, talvez, a parte mais importante do evento (ao menos é o que sugere o nome), conhecemos quadrinistas brasileiros e um, em especial, me chamou a atenção, Murilo Martins, com:

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E o mais novo:

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Compramos, minha Paula e eu, e no mesmo dia lemos e nos apaixonamos. Murilo tem uma grande habilidade não só nos seus traços limpos e expressivos, mas no texto e na forma como utiliza diferentes fontes. No final do Love Hurts, se apresenta para o leitor em duas páginas que dizem mais (e melhor) do que muitas biografias são capazes de fazer. Recomendo muito a aquisição, não só por ser um caso em que realmente você faz diferença na produção da obra (a compra é direto com o artista) mas também pela qualidade da obra.

Saldo positivo da Comic Con Experience. Iremos alegremente no ano que vem. Mas gostaria de ver a convenção menos capitalizada (vã esperança) e mais quadrinistas brasileiros divulgando seu trabalho.

Puta Homer fofo esse, abraçou e rodou com a gente. =)
Puta Homer fofo esse, abraçou e rodou com a gente. =)

P.S.: Cabe aqui uma menção ao André Caliman, autor da HQ Revolta. Conheci seu trabalho no meio do ano quando fui presenteado com sua HQ Revolta por uma boa amiga e nesta Comic Con pude conhecê-lo pessoalmente, parabenizar e agradecer por sua obra. Um sujeito muito amável e atencioso, daqueles que dá vontade de ter como amigo. Não falei dele no meio do post porque o conheci antes e já escrevi sobre num blog que ficou perdido nas internets. Num post futuro falo melhor dele.

Um novo espaço

Este é meu segundo blog pessoal. O primeiro larguei quando vi que não conseguia sair do egocentrismo, falar de mim como se isso interessasse à alguém. Depois disso fiz outros blogs, só que para fins específicos: eventos, publicação de contos, campanhas de RPG, estudos, debates etc. Alguns tiveram continuidade e outros não. Recentemente  minha companheira, Paula sugeriu que eu fizesse um blog para escrever sobre o que quer que seja.

Bem, começa aqui o Jardim Quântico.