Tempos de desobediência civil

Enquanto houver autoridade acredito que é sempre tempo de desobediência civil, mas essa necessidade grita em tempos que a lei e a justiça podem ser compradas e as necessidades do povo leiloadas por grupos de empresários inescrupulosos.

Henry Thoreau propôs há algum tempo de simplesmente não obedecermos as leis. Desobedecer. Partir o véu de cristal da autoridade. Um governo não tem como existir se aqueles que o compõe não o reconhecem e não fazem nada para mantê-lo, como pagar impostos, respeitar ordens de autoridades e outras obrigações civis.

Clique na imagem para baixar o livro “Desobediência Civil” e mirar-se no exemplo de Loukanikos.

Claro que em certas posições é mais fácil fazê-lo: um homem branco tem maiores chances de não ser incomodado por policiais do que um homem negro. E essa disparidade só cresce quando mudamos os personagens para mulheres, por exemplo, ou gays. Nesta hora acredito que é precíso ter malícia, manha, malandragem, mandinga…

Em 2013 escrevemos, um bom amigo (Renato Salgado) e eu, um texto sobre estratégia de como lidar com forças policias e vou copiá-lo abaixo (editei):

Mandinga Urbana

Capoeira que é bom não cai
E se um dia ele cai
Cai bem

Berimbau, Vinícius de Moraes e Tom Jobim

Forças policiais são uma imensa hidra, grande e forte. Treinadas em variadas formas para o combate, possuem armaduras e outros tipos de proteção, armamentos e respaldo do estado para usar da violência de maneira (quase) indiscriminada. Lenta e burra, a unidade é o que dá força às suas cabeças, à marcha da falange, porém as cabeças não tem nenhuma autonomia isoladas, pelo condicionamento à ausência de pensamento e por estar sempre aguardando o comando da cabeça central, sem a qual a besta-fera é inerte.

O cidadão comum, por outro lado, com pouca freqüência tem treinamento em combate, mas nenhum respaldo para ações, mesmo que em defesa própria. Por outro lado pode ser ágil e independente, encontrar armas e proteções improvisadas em todo o mundo, inclusive – e especialmente – na mentira.

Enfrentar um adversário ou inimigo é mais um problema estratégico do que moral. Habita o senso comum o herói que se faz na figura do sujeito destemido e enfrenta uma força muito maior que a sua munido apenas de coragem. Muito interessante em narrativas, não o é em termos estratégicos. Enfrentar uma força maior de frente é, na maioria dos casos, uma declaração de suicídio. Uma unidade policial, como a tropa de choque, está preparada e esperando pelo confronto, possuem um plano estratégico e uma organização para uma melhor eficiência de suas ações. A besta-fera não é invencível, mas é necessário pensar outras formas de luta para enfrentar esses grupos, para além de se lançar de frente.

A Hidra é sedenta de sangue, não possui propósito além da violência para a manutenção de uma tirania. Que se faça uso disso: veio para lutar, mas não terá ninguém para enfrentar. Fruste-a. Ao enfrentar uma força policial não conteste, agrida ou se oponha a sua autoridade. A dissimulação é uma arma muito funcional contra a força física –  não há em quem bater se os corpos não se engajam. A luta não deve ser avaliada por uma perspectiva moral, fugir não é necessariamente covardia, um movimento tem que atingir distintos sentidos e direções se quer uma maior eficiência. Deixar os policiais marchando sozinhos é uma estratégia, se organizar em outros lugares e recomeçar a luta não é fugir. A força policial quer dispersar a multidão e podemos dar isso a ela: deixe essa rua, há muitas outras para serem ocupadas. Os policiais precisam se re-organizar sempre e para isso terão que levar sempre o peso de todo seu aparato repressivo, o peso da sua imensidão.

O manifestante não precisa participar do protesto como indivíduo – portanto fraco – mas como coletivo, parte do bando, este sim forte, fluido, capaz de escorrer pelos becos da cidade e tomar forma em outro lugar. Capaz de confundir mil cabeças, dispersar-se e se organizar longe da Besta-Fera. Orgulho individual pouco importa para o bando. Abaixar a cabeça para o policial, dizer “sim senhor” e dar o que ele quer, não é ceder, pois a rasteira vem quando o inimigo relaxa, algo que acontece com frequência após alcançar êxito ou ter seu ego alimentado. O bando pode ser ágil e não precisa se engajar em batalhas que vá perder.  Que nossa militância seja ardilosa e encontre sua força nas frestas.

Imagem utilizada na publicação original
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